segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Prosopagnosia

Quando li Barba ensopada de sangue fiquei aliviada ao comparar o problema neurológico do personagem principal com a minha dificuldade de guardar rostos. O personagem de Daniel Galera só guarda rostos por, no máximo, 30 minutos e se vale de outras características para reconhecer as pessoas. Meu caso é bem mais leve: preciso ver a pessoa muitas vezes para me lembrar do rosto. Se deixo de vê-la com frequência, esqueço o rosto. E também preciso das outras características físicas pra saber quem é quem.

Durante alguns anos, prestei serviço para uma indústria e estava lá várias vezes por semana, lidando com várias pessoas. Por vê-las com frequência, sabia bem quem eram (tenho facilidade para guardar nomes e circunstâncias). Foi só parar de trabalhar lá e pronto: não lembro de quase ninguém. E praticamente todos me cumprimentam na rua. Às vezes, demoro dias para lembrar de quem é aquele rosto sorridente que me chamou pelo nome e perguntou se estava tudo bem. Em geral, lembro quem é por redução de hipóteses. Só quando o meu back-up de nomes e características funciona a contento é que consigo identificar na hora (ou no mesmo dia).

Rolam várias confusões, claro. Achei a irmã da Fabi a cara da minha amiga Luciana M. Não a verei tão cedo e é provável que, se deparar com ela sem a Fabi perto, eu ache a Andrea de Luciana. Já abracei uma pessoa na rua que era a cara de uma amiga - só que não era a pessoa que eu conhecia. Passei uma vergonha enorme. É por coisas desse tipo que parei de cumprimentar pessoas na rua. Só faço isso quando tenho certeza - e quase nunca tenho.

Acho todo mundo parecido com todo mundo - quase como aquela piada ruim do caminhão de japoneses. E tendo a guardar que a Carla tem o nariz pequeno, a Luciana M. e a Andrea têm olhos acinzentados, a Maria tem sempre o mesmo sorriso, que a Laura G. tem cabelos ruivos, que os filhos da Tia Maria têm olhos grandes, que o Caio tem o nariz proeminente. Quantas pessoas têm características iguais a essas? Elas me confundem!

Na Revista de Domingo do jornal O Globo de 27 de janeiro, a Martha Medeiros falou sobre essa condição, a Prosopagnosia. Não sei se é exatamente o meu caso, mas é consolador saber que isso tem um nome. O único link que achei com texto é do Jornal de Santa Catarina.

Peço perdão para os conhecidos que não reconheço. Infelizmente, isso não vai mudar.