segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Os palpites e a irritação posterior

Preciso reconhecer que eu errei muito com a vovó no fim do ano passado. Um erro que repercute até hoje, até agora, e que trouxe uma série de dores de cabeça. O caso é simples, mas virou um problemão. Confesso: eu deixei vovó escolher os móveis.

Ela queria trocar algumas coisas daqui de casa. O sofá dela, a televisão, o móvel da televisão, o fogão. Partindo do princípio que:
- a casa é dela;
- ela é quem vê TV o dia inteiro;
- ela é quem senta no tal sofá;
a conclusão lógica é que ela deveria escolher esses móveis.

Fomos, Leo e eu, com ela à loja de móveis. Foram duas horas para escolher o sofá e o móvel que ficaria sob a televisão. Vovó numa indecisão sem fim. Toda hora ela me perguntava o que eu achei. E eu dizia que a escolha tinha de ser dela. Acabou escolhendo um sofá de couro lindo e um móvel muito bonito também. A data de entrega era em 40 dias. Quando esses móveis chegaram, foi um deus-nos-acuda. Vovó começou dizendo que não era aquele o sofá que ela tinha escolhido. Ele veio amasssado (heim????), na cor errada, no modelo errado. O móvel era alto demais e não combinava com o piano. A televisão ficou muito alta e deu dor de coluna. O sofá ficou alto e deu dor na perna e nas costas. Tudo estava ruim. No fim das contas pediu pra gente trocar o sofá novo de lugar e voltou a usar o antigo. A TV continuou no mesmo lugar, do mesmo jeito.

No dia seguinte, mais reclamação. E nos dias que se seguiram, também. Perguntei a ela o que eu poderia fazer. Devolver? Comprar novos? Voltar com tudo pra onde estava antes? Ela disse assim: "Não devia ter trocado a TV, o sofá, o móvel. Fiz tudo errado. Eu não sei escolher. E, pra piorar, você, Leo e Paulo vão viajar no Natal". Foi aí que a ficha caiu. O problema não eram exatamente os móveis, mas a insegurança que ela estava sentindo sem nos ter por perto. Mesmo com Tio Jésus e Tia Vera vindo pra cá. O medo que ela tem de ficar sem nós três por perto se materializou nos móveis. Falei que ela não deveria transferir a tristeza da ausência para as compras, que não tinham nada a ver com isso. Ela ficou mais tranquila. Mas continuou falando a valer.

Essa falação toda foi também com pessoas que não moram aqui. O que gera uma série de palpites que deram origem ao item 4 deste post aqui. Quem vem dar palpites parece imaginar que nós não tentamos as opções mais simples (por exemplo, trocar os sofás e as TVs de lugar) e ainda inventam uma série de soluções impossíveis de serem realizadas. É palpite a toda hora. No começo, a gente explica com calma que não é bem assim. Mas com o acúmulo de pitacos, dá vontade de mandar todo mundo praquele lugar.

E onde entra o fogão nessa história?

Ele foi comprado depois da chegada da TV, do sofá e do móvel. Sabendo que vovó não estava fácil por aqueles dias, e que ela não poderia ir à loja escolher, fui com o Leo, escolhi o fogão, fotografei e levei pra vovó aprovar. Depois de pronto e instalado, perguntei à vovó o que ela tinha achando. Ela disse que gostou mais do fogão do que do sofá. O motivo? É que não foi ela quem escolheu. E ela tem tanto medo de errar que deu nisso: quando escolheu sozinha, o erro (se houvesse) seria só dela.

Já aprendi a lição: mesmo que seja uma coisa só pra ela usar, é melhor vovó não escolher nada. Ela se sente mais segura assim e evitamos uma série de problemas.