sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Depuração

O tempo passa para tudo e tudo sofre alguma modificação através do tempo (clichê, eu sei). Tem coisa que melhora, tem coisa que piora, tem coisa que apenas se adapta. Acho que deve ser legal envelhecer sem perder a essência, mesmo que as transformações sejam inevitáveis. A gente aprende, quando criança, que o ciclo da vida é nascer, crescer, se reproduzir e morrer. Do nascer ao morrer está implícito mudar.

Na minha pele já existem marcas do tempo, especialmente nas minhas mãos. No meu ser, há marcas que indicam que o tempo passou, seja na linguagem, na postura, na forma de lidar com a vida. Já encontrei dois ou três fios de cabelo branco teimando em surgir.

Pensar na morte é algo constante. Vejo dia a dia o envelhecimento da minha avó, da Tia Ylza. O jeito como é difícil para Vovó andar, como seus pés se arrastam no chão em vez de serem levantados pelos joelhos. As mãos trem de leve ao segurar algo mais pesado, como a garrafa de café. Os nós nos dedos proeminentes, a corcunda, quase uma corcova de camelo, as rugas, as manchas no rosto. Todos os sinais estão lá.

À medida em que o tempo passa, ela fica mais ansiosa. Os problemas mínimos viram cavalos de batalha. As escolhas parecem se dar sob a espada de Dâmocles. Guimarães Rosa dizia que viver é muito perigoso. Vovô Camillo, pai da Vovó, dizia que a velhice é muito triste. Vamos depurando características, defeitos, qualidades; perdendo algumas coisas, agregando outras.

Viver é perigoso e leva à velhice, que é triste. Enquanto isso, vivemos todos correndo atrás da felicidade. Ou, pelo menos, da aparência de felicidade. Mas talvez a felicidade seja mesmo a depuração entre nascer e morrer. Viver, manter a essência e, mesmo assim, mudar. Ter uma história pra contar, mesmo que nela não haja heróis, vilões, bruxas, castelos ou dragões. Ainda que dê trabalho, ainda que doa, sempre vão haver frutos.