quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Conto: Sem título

Escrevi esse texto ainda na faculdade de jornalismo, no fim do século passado (!!!). Sem título, sem data, sem nada. Achei outro dia, procurando um texto de Sociologia da Comunicação. Estava junto do material de aula do 6º período. Li de novo e até achei interessante, por isso a republicação aqui. Lembro que escrevi após ter feito uma matéria sobre campanha eleitoral e ter visto um monte de gente dizer que não assiste o horário eleitoral porque é um saco. O desconforto que senti deu nisso aí:

Lembra daquele horário em que você deitava no sofá e ficava assistindo à famosa novela das oito, que aliás começa depois das oito e meia da noite? Nesse horário a campainha e o telefone não podem tocar, a briga dos filhos tem que esperar, você até colocava bem perto uma lata de biscoitos e um copo d'água, para ocaso de sentir fome ou sede. Não é assim? Não é mais. Já está no ar o horário eleitoral gratuito. 

Gratuito? Só para os candidatos mesmo, né? Quem é que paga todo o tempo que você perde esperando aquela tortura chinesa passar? Quem paga aquela hora a menos no seu sono, aquela hora a mais que você ficou acordado só por causa da novela? E, porque você dormiu menos, acorda com um tremendo mau humor. Sem contar que, no seu horário de almoço, quando você parava no restaurante para ver o noticiário de esportes, saber da derrota ou da vitória do seu time, quem está lá? Aqueles caras com as mesmas caras da eleição passada te dizendo que são muito bonzinhos, que não vão roubar, que não, não são safados. 

Como não são safados? Já não é uma safadeza te fazer perder a novela das oito, ainda te fazem perder o almoço? Como é que dá para comer com uma pessoa falando da bomba atômica? Você logo se lembra que lá na Índia estão fazendo o maior barulho por causa da bomba atômica, e também se lembra daquelas imagens de pobreza que você sempre associa à Índia e ao Paquistão. Aí você se lembra que no Brasil também é assim, que também existe pobreza, que entra ano e sai ano aparece alguém dizendo que vai acabar com aquilo, que vai dar um jeito em tudo. Aí você acredita e vota nele e ele não resolve nada. Eles não resolvem nada. Como é que dá pra almoçar?

Ô saudade do tempo em que a gente nem ligava para a televisão. Era muito mais gostoso sair, ir para a rua, andar de bicicleta, jogar bola, apostar corrida. A televisão era só mais um móvel na sala de visitas, só ela ligada na hora do noticiário. Hoje, quem consegue viver sem ela? Quem aguenta ficar uma hora longe da TV? Uma horinha só? Eu não consigo mais. Você consegue? Quem consegue? Um dos poucos recursos que a gente em para se entreter sem correr sérios riscos de vida (note que eu disse sérios).

Como se não bastasse a gente já não ter segurança direito, uma saúde decente, ainda querem tirar da gente o direito de assistir a novela das oito. A gente trabalha o dia inteiro, trabalha até mais do que devia, para esticar o salário que, sem trocadilhos, é mínimo. Quando é que a gente descansa, bota pra fora todo o estresse do dia? Vendo a novela das oito, é claro! Mas em ano de eleição, não. Em ano de eleição você consegue ficar mais estressado do que antes. E os coitados dos seus filhos, que não têm culpa de nada, é que sofrem. Sobra patada pra todo lado. Ainda mais porque você olha pra eles e vê que não estão bem aí pro seu sofrimento. Para eles, tanto faz ter ou não ter horário político. Eles não assistem mesmo...

Aproveite se você tem filhos. Em vez de brigar com eles porque está estressado por causa do horário político, aprenda com eles. São as crianças que têm a melhor arma para escapar do horário gratuito. O video-game. Pede uma aula para os seus filhos e você vai ver. Aproveita, cara.