quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Livro: Hibisco roxo

"Descobri" Chimamanda Adichie depois que um colega me indicou o vídeo Os perigos de uma história única. Gostei demais e comecei a procurar os livros dela. São dois em português, lançados pela Companhia das Letras. Hibisco roxo e Meio sol amarelo. Comprei os dois e comecei por Hibisco roxo e adorei. Chimamanda é nigeriana e traz informações sobre a história recente do país.

A protagonista é Kambili, uma garota nigeriana de 16 anos. Seu pai, Eugene, tem algumas fábricas e dirige o jornal Standart. É um homem rico, com uma boa casa, oferece o que há de melhor em termos materiais para os filhos, Jaja, o mais velho, e Kambili. Eugene também é muito religioso, seguidor à risca do catolicismo. Como tem muito dinheiro, faz muita caridade. Por outro lado, leva a religião tão a sério que é capaz de renegar o pai, que não abandona as tradições religiosas de seu povo.

Kambili está em meio a um momento delicado. Ela ama o pai, confia nele e quer agradá-lo. Ao mesmo tempo, começa a perceber as contradições do pai. Um exemplo é o jeito como ele trata a mãe, o desprezo pelo pai e pela irmã (que é católica, mas também aberta às tradições), a forma rigorosa como observa o comportamento da comunidade.

Enquanto um golpe de estado muda tudo no país, e o jornal Standart inicia uma ferrenha oposição ao novo regime, Kambili e Jaja recebem permissão para passar alguns dias na casa de Tia Ifeoma, a tia paterna. Viúva e com três filhos, ela tem uma forma bem particular de lidar com a vida e com o mundo, e seu jeito de ser. Jaja e Kambili ficam ainda mais divididos, e novos acontecimentos vão mudar a vida de toda a família.

Chimamanda reforça o que já tinha dito no vídeo. Que a Nigéria não é um país exótico, que há uma vida comum por lá, como em qualquer outro lugar. A diferença entre ricos e pobres é bem como a do nosso país, com discrepâncias imensas. A universidade onde Tia Ifeoma dá aulas passa por problemas também bastante comuns em relação às brasileiras, inclusive com relação a equipamentos e condições de trabalho. Por outro lado, as tradições do povo igbo são mostradas com todas as cores, com as festas de fim de ano (e as famílias reunidas em suas cidades natais). A oração de Papa-Nukwu, o avô de Kambili, presenciada pela neta, é dirigida à natureza e aos seus ancestrais, pedindo proteção para toda a família, para a terra, para prosperidade da nação. Para a menina, é um choque ver que o avô pede carinhosamente pelo filho que o renegou. As árvores, as cidades, as comidas, as roupas são descritas o tempo todo, como que para lembrar ao leitor que aquela história, por mais universal, é uma narrativa nigeriana.

A religião é outro ponto interessante do livro. A começar pela relação absurda que Eugene mantém com a religião dos seus colonizadores. Ele não se importa em ferir, machucar, espancar quem quer que seja, desde que isso seja corretivo, que livre a pessoa do caminho do pecado. O contraponto é Tia Ifeoma, que consegue ser católica praticante, mas respeita o tradicionalismo e incentiva seus filhos a pensar, analisar e não se dobrar a qualquer coisa. Um exemplo é a questão do "nome de crisma", um nome inglês que deve ser escolhido pelo crismando, para que o bispo possa concluir o sacramento. Amaka, filha mais velha de Tia Ifeoma, se recusa a escolher esse nome.

Enquanto lia, pensava como era possível que alguém do outro lado do mundo pudesse criar uma história tão parecida com a minha (em alguns aspectos - e nesses, absurdamente parecidos). Não dá para contar tudo aqui. O fato é que sofri com Kambili nos momentos de maior tensão e violência física. E me identifiquei com a rebeldia silenciosa de Jaja, quase como se eu estivesse ali.

Fazia tempo que não me emocionava tanto com um livro. Que eu me lembre, só Estação Carandiru e A menina que roubava livros me fizeram chorar de soluçar ao virar a última página. Por conta disso, recebi até uma represália do Leo. Segundo ele, eu não devo ler coisas que me fazem sofrer. Nesse caso específico, me fez sofrer sim, mas também aprendi muito.

O ano está só começando. Mas foi o melhor que li até agora.