quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Livro: Caderno Afegão

O Fórum das Letras trouxe uma coisa muito boa: a possibilidade de conhecer a obra de Alexandra Lucas Coelho, jornalista portuguesa, correspondente do jornal Público no Rio de Janeiro. Ela participou de uma das mesas do debate sobre Jornalismo e Literatura, falando sobre sua experiência como autora e como correspondente internacional. Dois livros dela ficaram na minha memória: um sobre a revolta popular no Egito, na Praça Tahir (e eu esqueci o nome do livro). Ela passou as férias cobrindo o lado pessoal da revolta, conversando com quem estava acampado na praça, vivendo com eles. O outro foi Caderno Afegão, minha leitura de Natal.

Em sua palestra, Alexandra contou que tentou entrar no Afeganistão em 2001, logo após o atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center, mas não conseguiu. Ficou um tempo na fronteira com o Paquistão, que estava fechada, e logo retornou para Portugal. Em 2008, ela conseguiu entrar, como correspondente do Público e de uma rádio de Lisboa. E viveu num hotel em Cabul durante um mês, percorrendo algumas das principais cidades do país, conversando com os afegãos, vendo de perto a realidade de um país dividido, ocupado por forças de paz, com áreas em conflitos e muitas diferenças culturais.

O povo afegão - ao menos as pessoas que foram contactadas por Alexandra - é muito receptivo. A maior parte das pessoas facilitou bastante a vida da jornalista, seja indicando fontes, ajudando na logística ou até mesmo servindo de companhia para uma ida à padaria, já que, no país, as mulheres não podem sair à rua sem uma companhia masculina. E assim, Alexandra colheu história intensas em Cabul, Herat, Jalalabad, Kandahar (e era um risco ir a esta cidade, a primeira a ser conquistada pelos taliban e a última a ser recuperada pelas forças de paz), Mazar-i-Sharif, Bagram, Bamiyam e Band-e-Amir.

São famílias que fugiram do país, mas voltaram após a queda dos taliban, tentando a adaptação a um país com uma enorme chaga de guerra. Mulheres que não usavam a burqa, mas precisaram aderir a ela a voltar ao Afeganistão. Mulheres que conseguiram bolsas de estudo fora do país e eram incentivadas pelos pais a estudar, a ler filosofia e psicologia. Homens apegados às tradições (que são muito bonitas, diga-se), mas com medo do destino político da terra natal. As mulheres que precisam se capacitar como médicas e enfermeiras para poderem atender outras mulheres em hospitais. Aquelas que sofrem de problemas tão banais no ocidente, mas que não encontram atendimento porque os maridos acham indigno que uma mulher seja atendida por um médico - só podem ser examinadas por outras mulheres. Problemas de saúde que só um saneamento básico decente pode consertar. Problemas que já não existem no Brasil - e olha que não somos lá essas coisas em condições sanitárias e de saúde. "Em Kandahar, por cada 100 mil partos morrem 2 mil mulheres. Em Portugal morrem cinco". Não sei quantas morrem no Brasil. Por outro lado, há uma enorme esperança de dias melhores, sem guerra, sem diferenças, sem mortes, sem bombas, sem minas terrestres, sem o mínimo para a sobrevivência com dignidade.

Alexandra conta que há rosas por todo o Afeganistão. E que elas são muito bem cuidadas, quase como um patrimônio nacional. E há chás, cardamomo, carneiro, tapetes no chão para receber as visitas ou para as refeições. Pessoas que gostam de conversar, que têm prazer em contar do passado áureo do país, que sentem vergonha pelos budas destruídos.

Ela termina o livro assim: "Tive muita sorte. Foi um privilégio. Obrigada". E é preciso dizer que eu agradeço pelo privilégio de ter visto a palestra de Alexandra e comprado o livro (na Estante Virtual). De ter levado ele comigo na viagem pra Piracanjuba, de ter devorado cada linha, da Conexão para o Aeroporto de Confins, no dia 21/12/12, até a manhã de 24/12/12, entre a sombra da mangueira da casa da D. Lídia. Foi um privilégio.

Agora é correr pra encontrar o livro dela sobre a primavera árabe.