terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Filme: Django Livre

Django Unchained - 2012 (mais informações aqui)
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson

Uma antiga lenda alemã diz que, para salvar a princesa Brunhilde, o herói Siegfried se defrontou com três problemas. Ele enfrentou a montanha, porque não tinha medo dela. Enfrentou o dragão, porque não tinha medo dele. E passou pelo círculo de fogo, porque a amada valia a pena. O Dr. King Schultz (Christoph Waltz - atuação primorosa), dentista alemão, conta essa estória a Django (Jamie Foxx), escravo que coopta para caçar recompensas, ao saber que Brunhilde von Shaft é o nome a esposa do escravo americano. Django e Brunhilde foram separados por um senhor cruel e vendidos. Ele quer recuperar a esposa e, por isso, aceita trabalhar com o Dr. Schultz em troca da liberdade, aprendendo a se portar como um ator, nos planos mirabolantes e divertidíssimos do dentista alemão. E, para ter Brunhilde de volta, vai ter que enfrentar os mesmos três problemas: a montanha (no inverno americano), o dragão (Calvin Candie, personagem de Leo DiCaprio, sempre perfeito) e o círculo de fogo (que não vou contar!).

O dentista abdica da profissão para viver das recompensas oferecidas na captura vivo-ou-morto de foragidos da lei nos Estados Unidos pré guerra da Secessão. Para uma certa missão, ele precisa de um escravo que reconheça os irmãos feitores Brittle. É aí que entra Django, que sofreu e viu a esposa sofrer na mão do trio. Schultz oferece dinheiro e a liberdade caso Django reconheça os três irmãos. Com a missão finalizada, muda-se o acordo: o ex-escravo vira parceiro do caçador de recompensas durante o inverno para que, no verão, já com bastante dinheiro, a dupla possa descobrir o paradeiro de Brunhilde e resgatá-la.

O filme traz um retrato da escravidão americana. Se é possível que o espectador se pegue com nojo de tudo aquilo, é imprescindível lembrar que são situações possíveis e, talvez, até prováveis. Sim, tem gente capaz de fazer tudo aquilo a outro ser humano. Tem gente que fez. Tem gente que ainda faz. Três momentos, em especial, me tocaram: a luta dos mandingos na sala de Calvin Candie; o escravo fujão de Candyland e os cachorros; o "forno" onde Brunhilde está, também em Candyland. Uma crueldade tão absurda que foi impossível passar incólume.

As atuações de Waltz, DiCaprio e Jackson são muito boas. Waltz já tinha provado que era um ótimo ator em Bastardos Inglórios (recebeu vários prêmios por esse filme). DiCaprio já prova há anos que é muito bom (jabá: texto sobre ele no Cinema de Buteco). E Jackson, putz... custei a reconhecê-lo em cena, de tão bacana a caracterização. Pra mim, seu personagem, Stephen, é ele tão ou mais vilão do que o personagem do DiCaprio (o que me faz pensar que ele pode ser, talvez, o dragão da lenda - mas ainda acha que é o Leo). Jamie Foxx não é lá essas coisas, e acaba sendo empalidecido pelo Waltz.

O personagem de DiCaprio é desprezível. O que mostra, de novo, o grande ator que ele é. Podemos amá-lo em vários papéis e ter vontade de espancá-lo aqui. Calvin Candie é descrito como um francófono (exige ser chamado de Monsieur Candie), mas não fala uma palavra em francês, não sabe quem é Dumas. Mesmo assim, um de seus escravos chama D'Artangnan. E Dr. Schultz lavou minha alma ao dizer a Candie que Duma, autor dos Três Mosqueteiros, era negro. Em uma cena, Leo se machuca ao quebrar, acidentalmente, um copo. Mas continua a atuar e faz isso com um domínio de cena tão grande, que ela fez parte da montagem final. É tão intenso que, ao final, quando ele para e arranca pedaços de vidro da mão, parece que foi um truque de cena muito bem feito, e não a realidade, a mão verdadeiramente machucada, cheia de cacos de vidro. Outro ponto importante em Calvin Candie é a relação dele com a irmã, Lara Lee. Ela é mais velha (vê-se pelos pés de galinha, que parecem ser realçados pela maquiagem), e a típica mulher sulista, primeiro cuidada pelo pai, depois pelo marido. Como é viúva, é Calvin quem a protege. E ela retribuiu sendo apenas decorativa e sorridente. Reparar em Lara Lee faz perceber que Calvin é um menino mimado e arrogante. Já Stephen, personagem de Samuel L. Jackson, é tipo a Mammy de ...E o vento levou: escravo negro que se sente branco, que despreza os outros negros, que gosta de vê-los sendo punidos, que define as punições. É quase um feitor sem armas. Ele é o mais esperto em Candyland, mas precisa usar uma série de artifícios para que não percebam que ele é quem dá as cartas por lá.

Django superou Bastardos Inglórios, um dos meus favoritos. O filme dialoga com Bastardos. Os dois personagens de Waltz vivem de caçar seres humanos (um caça judeus; o outro, foragidos da justiça). Em Bastardos, um americano "resolve" um problema da Alemanha. Em Django, um alemão ajuda a "resolver" um problema dos Estados Unidos. Os dois filmes falam sobre a crueldade, a prepotência, a falta de humanidade do ser humano, costurados por histórias de vingança.

Ó que eu a-do-ro Tarantino! Já falei dele aqui, aqui, aqui e aqui, mesmo que bem de leve.