terça-feira, 20 de novembro de 2012

Sobre a felicidade (ou não)

Ontem, vovó veio fazer uma série de queixas e dizer que acorda, em certos dias, bastante melancólica, com muita tristeza. Conversamos sobre isso e, certa hora, ela me disse que não pode comparar a minha vida com a de outra pessoa porque tudo dá certo pra mim, e pra essa outra pessoa, quase nada dá certo. "Você é feliz, ela não", foi o resumo da conversa.

Foi preciso uma respiração funda pra dar conta de responder a isso sem ofendê-la. Mas não deixei de me posicionar.

Não, vovó. Felicidade plena é algo que não existe. Eu tenho vários momentos felizes entremeados entre outros nem tanto e certo número de intensa infelicidade. Porque amo meu trabalho, mas passo muito perrengue com ele. Porque vim de um núcleo familiar absurdo, que ainda me atropela em determinados momentos. Porque tenho recebido, ao menos uma vez por semana, um e-mail indesejado de uma pessoa da qual tenho pânico-pavor-horror e, até onde sei, não há nenhuma medida judicial para resolver isso. Porque há dias que uma tristeza infinda me absorve e vou chorar no quarto, com o rosto escondido no travesseiro.

E ela, surpresa, com os olhos bem abertos, me perguntava qual o motivo disso.

Isso, vovó, se chama vida. E por um respeito enorme a você, eu evito comentar meus momentos de luta, de tristeza, de fraqueza, de desespero. Não quero que você veja porque eu sei que compartilhamos vários pontos de dor. E se eu estiver triste por conta deles e você me vir chorando, sei que vai se entristecer também. E eu não quero te ver triste. Já basta a sua idade, já basta ter visto quase todos os seus irmãos morrerem, já basta a tristeza enorme que a sua filha te causa. Não preciso alimentar isso.

Ela, de novo: "mas você parece tão feliz!"

Pareço sim, vovó, porque eu tenho muitos momentos felizes. Muitos. Tenho você, Tia Ylza e Paulo, mesmo com todos os problemas de cada um. Tenho o Leo, que é o que de mais feliz a minha vida traz. Trabalho com o que gosto, estudo, leio e vejo o filmes que quero. Tenho amigos lindos, com quem posso contar. Mas a vida, vovó, não é só felicidade. São momentos que se alternam (Freud já falou sobre isso no início do século passado, mas sei que você não vai entender). E é justamente isso que faz as coisas ficarem interessantes.

Vovó me acha uma pessoa plenamente feliz. Isso porque ela não tem Facebook. Imagina se tivesse...