terça-feira, 27 de novembro de 2012

Só uma palmada

Escrevi isso num caderno, não sei exatamente quando. Só que foi na época em que se discutia a lei da palmada. Achei e resolvi passar pra cá. Recomendo a leitura de outro post, em que linkei um texto da Ruth de Aquino, aqui.

A discussão sobre a Lei da Palmada está me cansando. Não que tenha havido alarde suficiente sobre o assunto - vi pouca gente comentando, na verdade. Tem gente que fala que vai dar palmada no filho sim,que é assim que se educa - antes ir contra uma lei agora do que contra o código penal inteiro no futuro. Tenha dó, né? É a palmada que evita que sei filho seja um marginal? É na base da palmada que ele vai aprender o que é certo e errado?

Eu sou a favor da Lei da Palmada porque aprendi - na prática - que porrada não faz de ninguém uma pessoa melhor. E porque a lei é necessária para ensinar a certos pais que filhos não são propriedade deles. 

Exemplo: um pai e uma criança de dois anos. A criança faz alfo que o pai considera um desrespeito. Ele dá um tapa na orelha esquerda da criança. A avó materna, que vê a cena, intervém e pede ao genro para não bater na cabeça da criança. O que o sujeito faz? Bate com a mesma intensidade na orelha direita. Vira para a sogra e diz: "filho é meu, bato na hora e do jeito que eu quiser".

Vamos analisar:
1 -Que consciência de vida tem uma criança de 2 anos para saber se está ou não desrespeitando alguém?
2 - O que é respeito?
3 - O sujeito acha que, porque colocou no mundo, a criança é propriedade dele. Desde quando, Brasil?
4 - A força de um adulto versus a fragilidade de uma criança. Não precisa comentar, né?
5 - Pessoa ainda sem consciência do que é o mundo e sem possibilidade de se defender. Mais uma coisa que nem precisa comentar. 

Mas - alguém pode dizer -, esse é um caso hipotético. Não, meus  senhores. É um caso real. Aconteceu na minha família, de classe média, com pessoas com educação formal. Eu ainda não era nascida, mas escuto minha avó contar, horrorizada até hoje com o fato. 

Palmada educa? Jamais. O que educa é o exemplo. Isso é claro como água. O que me fez ser uma pessoa "boa" hoje foi o que vi no meu avô, no meu padrinho, na vovó, na Tia Ylza, na Tia Leda e no Paulo. Nenhuma palmada (ou coisa pior) que eu sofri me levou a algo, a não ser dor, humilhação e revolta. São marcas que ficaram em mim e que até hoje me fazem mal. 

Há quem diga que a Lei da Palmada vai favorecer as crianças que já estão "se sentindo" por conta do Estatuto da Criança e do Adolescente, e que podem ganhar mais força no embate / combate com professores e pessoas dos Conselhos, diretores de escolas etc. É verdade? Sim, é verdade. É possível, sim, que isso aconteça. E que fique pior. Mas isso não é culpa da Lei da Palmada. É um problema de educação, de Estado. Há anos eu brinco que, para ser pai e mãe, as pessoas deveriam passar por um exame psicotécnico. É sério, tem muita gente parindo sem a menor condição psicológica para cuidar de uma criança. E são essas pessoas que acham que educar é bater.