sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Marcas

Quase como na música do Chico Buarque, todo mundo tem uma marca pelo corpo ("só a bailarina que não tem"). Tenho várias. Acho que isso começa com as marcas de nascença. Nenhuma especial em mim, exceto pelas pintas, que tenho muitas. Um grupo delas, no braço direito, na exata posição das estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul. Outras, maiores ou menores, nas costas, nas pernas, nas mãos, nos braços.  Até uma no dedo mínimo da mão direita, na parte da palma, e outra na sola do pé, no dedo mínimo do pé esquerdo.

Um dia, encontrei uma espécie de machucado no ombro esquerdo, bem perto de duas pintas. Era uma bolinha vermelha, do tipo que formaria, em pouco tempo, uma casquinha de machucado. Cocei, arranquei e a bolinha voltou. Demorou pra que eu entendesse que ela era só mais uma marca. Permanente, em relevo, e bem vermelha. Como se fosse mesmo uma bolinha de sangue. Outras dessa também apareceram pelo corpo, mas sem relevo e menores. Diz a Tia Dermatologista que elas aparecem devido a um probleminha de circulação, mas nada preocupante. Gosto muito da bolinha no ombro. É quase uma marca pessoal, como as de nascença, que não tenho.

Algumas cicatrizes sempre ficam. No braço direito, três marcas das unhas da Laura, que era uma irmã mais velha muito delicada e atenciosa comigo (#not). Uma marca no braço esquerdo, quase sumindo, de quando, aos dez anos, fui incumbida de tirar um tabuleiro de pão de queijo do forno, sozinha, enquanto minha mãe ia buscar meu irmão mais novo na escola. Óbvio que não ia dar certo. Assustei com o calor do forno, abri os braços e encostei o esquerdo na parede interna do forno. Outra cicatriz que anda sumindo é uma pequenininha na virilha, feita com leite fervente. Quem foi colocar o tal leite quente na minha xícara errou e o líquido caiu direto no baixo ventre e nas pernas.

Há outras marcas que queimam no corpo e desaparecem, mas deixam cicatrizes profundas na alma. Não vou esconder mais: fui espancada várias vezes. Todas sem motivo, já que não há NADA que justifique que um adulto bata em uma criança (é covarde, no mínimo, quem faz isso) ou um homem que bata em uma mulher. Aliás, caso o agressor leia e fique furibundo, não tenho mais medo de um processo. O que não falta é testemunhas do abuso que eu e meus irmãos sofremos. As marcas que ainda ardem na alma estão sendo tratadas, mas jamais vão desaparecer. Elas podem deixar de doer um dia, mas sempre estarão lá, me lembrando de que há muita gente covarde no mundo.

Queria chegar, depois desse levantamento exaustivo, no seguinte ponto: a maior parte das marcas que carregamos não são escolhidas. Vieram "de fábrica", foram produzidas por outros ou por acidente. Há quem goste de marcar o corpo, de várias formas, sejam ritualísticas ou não. Como disse um colega das aulas que faço no mestrado, há quem transforme o corpo numa vitrine. Com esse objetivo ou não, o fato é que a tatuagem é cada vez mais comum. Leo tem sete (já contei aqui e aqui). E neste post aqui, que lista coisas a fazer, a número 49 diz: Fazer uma tatuagem. Eu digo: está nos planos. 

O plano se concretizou. O desenho foi escolhido por mim, há seis anos, mas só tive coragem há uma semana. É parte de um quadro de Miró - A Bailarina II - tem mais informações aqui. O responsável foi o Lu Correa, que é fera. Ele fez seis das sete tatuagens do Leo e manda bem demais. É super cuidadoso, o estúdio é todo de acordo com as normas. Recomendo pra quem quer fazer em BH. Leo fotografou parte do processo:


O Lu trabalhando e o meu livro de filosofia

Traçado pronto

O Miró só meu
Agora posso me orgulhar: há uma marca em mim que eu mesma quis fazer.