quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Livro: O espírito da prosa

Neste semestre maluco, que começou em setembro, estou cursando duas disciplinas isoladas no Mestrado em Estética e Filosofia da Arte. Uma é Estética e Crítica na Contemporaneidade, que versa sobre Teoria Crítica. A outra é O Autor na Filosofia e na Literatura, sobre narração e autobiografia. Nesta última, o trabalho final está sendo bastante interessante. Cada aluno deve escrever e apresentar uma "autobiografia intelectual". Estou escrevendo a minha, com um pouco de medo por conta da linguagem que é mais focada em primeira pessoa (e dizem que não tem pronome mais chato do que "eu"). Bom, aqui no blog é bem diferente; num trabalho acadêmico, chega a ser esquisito um texto todo montado em primeira pessoa.

Essa questão da linguagem me incomodou um tantão. Daí, fui pra internet procurar se existe algo parecido, para verificar a linguagem. Encontrei esse livro do Cristovão Tezza, chamado O espírito da prosa - uma autobiografia literária e tratei de comprar. O livro foi lançado no começo de 2012 e propõe uma reflexão sobre o que leva um escritor a escrever. Não é exatamente do que trata o trabalho do Mestrado, mas foi uma boa surpresa.

Tezza conta como se deu sua descoberta como escritor. Como a influência da leitura pode determinar o desejo da escrita e que, no começo, quem escreve, em geral, imita aqueles que acha bons escritores. Fala com crueza de suas primeiras obras, tanto os livros publicados quanto os que, finalizados, não foram mostrados a ninguém. E sobre o poeta em conflito com o prosador.

As questões apresentadas sobre o processo da escrita, sobre a necessidade de um narrador diferente de um autor e da ausência de felicidade (só escreve quem não é feliz. Quem é feliz não precisa pegar numa caneta ou ligar o computador para escrever: vai simplesmente viver a felicidade) são muito interessantes e fazem o livro merecer uma segunda leitura.

Resumindo: para o trabalho do Mestrado, serviu para que eu visse que há alternativas na linguagem focada em primeira pessoa. Mas foi melhor que isso. O que eu aprendi com o livro não está vinculado ao trabalho em si, mas à minha vida como leitora e como escrevinhadora que, quem sabe um dia, pode vir a ser escritora. Alguns dos requisitos que ele apresenta eu já tenho. Basta estudar mais e desenvolver.

To Tezza, já tinha lido O filho eterno, em que ele conta como seu um filho com Síndrome de Down mudou sua vida e sua relação com os outros. É um livro forte, que pega a gente pelo laço e dá aquela sensação de desconforto. Um livro que eu queria mandar pelo correio pra uma certa progenitora que não consegue enxergar em sua filha bipolar que ela tem uma doença e precisa ser bem cuidada. Desisti disso, claro. Seria jogar pérolas aos porcos. Fiquei com vontade de ler Trapo, o primeiro livro que ele reconhece como o de um autor amadurecido.