terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um livro e uma história

Meu padrinho foi uma pessoa bem singular. Era muito inteligente e um tanto auto-didata. Falava sei lá quantas línguas, fazia sei lá quantas coisas, era dinâmico e muito querido aqui em Ouro Preto. Nem vou falar muito que ele veio da família mais linda do mundo, porque é até sacanagem. Quando mais velho, ele teve Alzheimer (falei disso aqui e aqui) e foi muito sofrido viver aquilo tudo.

Quando pequeno, meu bisavô Camillo levou os filhos Geraldo e José Pedro (o meu padrinho) para o Seminário, para que pudessem estudar. Tio Geraldo estudou e logo quis sair de lá. Meu padrinho quis ficar e foi ordenado padre. Já havia um padre na família, o irmão do biso Camillo, chamado de Padre Barros. Meu padrinho, cujo nome completo era José Pedro Mendes Barros, virou Padre Mendes, e é assim que ele é conhecido, até hoje.

Não sei os detalhes de sua vida como padre, só sei que logo ele virou disciplinário no Colégio Arquidiocesano em Ouro Preto e também professor de Português e Inglês. As aulas ele deu também na Escola Normal e na antiga Escola Técnica Federal de Ouro Preto, hoje IFMG. Uma geração de pessoas em OP teve aulas com ele. E, não sei se é porque eu sou da família, mas nunca ouvi alguém falando mal dele. Dizem que era um professor rígido, bem bravo, mas ótimo no ofício. Dessa experiência dele em sala de aula surgiram dois livros: A Análise Sintática e American English. Foram editados, lançados e nunca mais reeditados. Ou seja: quem tem tem, quem num tem... procura no Estante Virtual ou no Mercado Livre.

Tudo isso pra dizer que outro dia a campainha aqui de casa tocou e era um sujeito perguntando se a gente tinha o A Análise Sintática para vender. Não, moço, a gente não vende. Se a gente tivesse algum exemplar, a gente te dava de presente. O moço deixou o e-mail dele comigo - e eu esqueci de perguntar o nome dele. Daí, comecei a procurar o livro. O meu exemplar, que é lindo e fofo, estava até disponível para ser escaneado e enviado em PDF. O duro foi encontrar outro. Mas, afinal, achei. Mandei um e-mail pro moço, pedindo desculpas por não ter perguntado o nome dele. E o livro está indo, pelo correio, para o Rio de Janeiro.



Sabe o que me deixa feliz? O livro foi escrito após anos de sala de aula, editado em 1977 e até hoje faz um relativo sucesso. O Alexandro (esse é o nome do moço que queria o livro), enquanto conversou comigo na porta de casa, contou que nunca aprendeu análise sintática. E que comentou isso com uma amiga em Ouro Preto (obviamente, esqueci de perguntar o nome da amiga). Ela então falou do meu padrinho, do livro dele e indicou como ele deveria fazer para chegar lá em casa e pedir um exemplar. E eu fiquei, por dentro, pulando de felicidade e de orgulho pelo meu padrinho. Ano que vem, ele completaria 100 anos, se estivesse vivo. E mesmo tendo morrido em 1999, continua espalhando muitas coisas boas por aí