quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Livro: A duração do dia

Ganhei esse livro da Bel, junto com o presente enorme que ela me mandou de ex-amiga oculta, no fim de 2011. É da Adélia Prado, uma poetisa mineira, de Divinópolis, bem conceituada no mundo da poesia. Demorei horrores para ler, né? Primeiro porque o tempo foi apertando e o livro foi ficando ali, na pulha dos que precisam ser lidos. E essa pilha é traiçoeira: o novo livro, em vez de ir para o final, acaba por cima do mais recente. E assim, A duração do dia ficou lá aguardando a sorte.

O segundo motivo é que eu já fui uma leitora voraz de poesia, mas acabei perdendo o tesão. Eu lia muito quando era adolescente - devia ser por melancolia mesmo, eu era fã de Álvares de Azevedo. De todo mundo que li naquela época, os que ainda me calam e me cutucam são Carlos Drummond de Andrade e Álvaro de Campos, heteronômio do Fernando Pessoa. Adélia Prado eu já tinha ouvido falar e lido uma coisa aqui e outra ali (como o poema em que ela brinca com o Drummond e diz que um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, a visitou no nascimento, ao contrário do anjo torto do itabirense).

A duração do dia é um livro bem bonito. Melancólico e esperançoso ao mesmo tempo. Falam sobre o cotidiano, a vida em Divinópolis (pelo que pude ler da vida de Adélia, ela se associa à cidade de uma forma muito bacana), cuidando de casa, do jardim e, como uma mineira de 1935, falando sobre Deus e a leitura da bíblia.

O poema que mais gostei se chama O ditador na prisão, em que ela fala sobre o livro de poesias de Saddam Hussein escreveu na prisão, antes de ser condenado à morte por enforcamento. Há uma música dos Engenheiros do Hawaii sobre o tema também, Armas químicas e poemas. Acho que por isso esse aí mexeu mais comigo.

O ditador na prisão

O ditador escreve poesia.
Coitado dele.
Coitados de nós que dizemos coitado dele,
pois também ele tem memória
para evocar laranjais, tigelas de doce
entre risadas e conversas amenas,
paraíso de ínfimas delícias.
Mal floresceram os beijinhos
e as abelas rodeiam-nos afainosas,
tornam o dia perfeito.
Não tripudiemos sobre o sanguinário
que sob a vista dos guardas
vaza no caderno seu desejo,
em tudo igual ao desejo dos homens,
quero ser feliz, ter um corpo elástico,
quero cavalo, espada e boa guerra!
O ditador é devoto,
cumpre as horas canônicas como os monges no coro,
cochila sobre o Alcorão.
Eu que vivo extramuros tremo pelo destino
de quem deprimiu o chão com sua bota de ferro
Ninguém perturbe a prece do proscrito,
nem zombe de seus versos.
A misericórdia de Deus é esdrúxula,
o mistério avassalador.
Por insondável razão não sou eu a prisioneira.
Minha compaixão é tal que não pode ser minha.
Quem inventou os corações
se apodera do meu para amar este pobre.