sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sobre a pipoca e o Affonso

O Affonso Romano SantAnna tem uma coluna semanal no caderno de Cultura do jornal Estado de Minas e seus textos são muito bacanas. No último domingo, 15 de julho, ele escreveu o texto abaixo, Pipocas e foguetes. O texto é fluido e muito gostoso de ler (como sempre), mas toca num assunto que me deixou constrangida: a pipoca no cinema.

Sou dessas que ama cinema com pipoca. De preferência doce, tamanho pequeno. Cinema sem pipoca parece tão vazio, tão deslocado... E foi tão ruim ler que "geralmente são pessoas gordas, as que comem pipocas. Ou adolescentes despassaradas". Peralá... pela liberdade da melhor combinação das salas de projeção!

Concordo que pipoca faz barulho e faz sujeira (e que mania tem os atendentes das bombonieres de encher os saquinhos até transbordar, contribuindo para todo consumidor de pipocas deixe cair um sem número delas pelo chão, do balcão até a poltrona)... incomoda o companheiro de sala, eu sei. E concordo que é um ato de individualismo, como diz o Affonso.

Já com a parte dos foguetes, concordo em gênero, número e grau.

O texto abaixo pode ser acessado no blog do escritor, sem link direto.




PIPOCAS E FOGUETES

Affonso Romano de SantAnna

              Você já se assentou, no cinema, ao lado de alguém que está comendo pipoca? Ou melhor: alguém que come pipoca já se assentou  acintosamente ao seu lado no cinema?
É um horror!
Quando vejo um casal, com aqueles sacos enormes de pipoca,  procurando sua poltona no cinema, me estremeço todo. Vão se assentar ao meu lado? Vão ficar mastigando essa coisa  malcheirosa? Vão produzir aquele ruído desagradavel  de roedor desempregado? Vão emporcalhar o chão? Vão ficar bovinamente engulindo  aquilo e parvamente olhando a tela?
Geralmente são pessoas gordas, as que comem pipocas. Ou adolescentes despassaradas. Mas outro dia, antes do filme começar, puxei conversa com um casal que comprava pipocas na entrada do cinema. Fiz uma pesquisa. Queria entender esse fato  gastronômico e social. Detalhe: ambos eram atletas.  E assim justificavam que  tinham como queimar todas as calorias das pipocas. Como eram simpáticos, e a moça  era falante, perguntei onde iam se assentar, para me precaver ou mudar de assento.
Bem, alguém me disse que o negócio do cinema não é o ingresso, mas sim a venda de pipocas:  daí os anúncios e aqueles pacotes imensos acompanhados da sintomática coca-cola. Não acredito nisso. O negócio de comer pipoca no cinema é pura imitação dos costumes americanos. Nefandos costumes, às vezes.
Mas a pipoca me levou a uma profunda  divagação sociológica. E sugiro que se faça uma tese com este título: Pipocas e foguetes ou a supremacia da individualidade sobre o  social.
Foguetes. Não sou contra. Nem  sou neurótico de guerra. Mas não entendi porque certas pessoas se dão o direito de espolcar foguetes nas horas mais estranhas. De madrugada, por exemplo.Você está dormindo, e, de repente Boom! Blahhh!Pahamm!
Que  foi? Quequéisso (como escrevia o Pedro Nava)? Nada. Foguetes na madrugada. Quarta e domingo, então, piora, pois tem jogo. Que o digam minha cachorrinha  e todos os cachorrões apavorados pelos cantos da casa.
Então, me pergunto:- o sujeito tem direito de comer pipoca? Tem. Mas não tem o direito de me impingir cheiros, sujeiras, ruídos. O sujeito tem direito de explodir foguetes a qualquer hora ? O que   um milhão de pessoas em torno tem a ver com essa explosão indivualista?
Para aqueles que vão escrever aquela tese ou ensaio sugerido anteriormente contribuo com um exemplo, igual, invertido e extremo. Quando morei na Alemanha, me surpreendeu o contrário: o silêncio obrigatório. É tanto silêncio, que as pessoas ficam enlouquecidas, sobretudo os nordestinos. Um ex-aluno meu foi dar aulas em Colônia, e daí a poucos dias se demitiu: não suportava o silêncio das ruas, das casas, das pessoas.( Isso é outro tema para estudo:  O Silêncio Alemão e Sua Inteferência na Psiquê do Individuo Tropical) .
Na Alemanha, essa síndrome  do ruído é terrivel. Não sei se é por causa dos bombardeios durante da II Guerra e todas as guerras em que os alemães se meteram. O fato é que havia a no prédio em que eu morava, lá em Colôniia,  uma advertência : você não podia tomar banho depois das 10 da noite, porque ia incomodar os vizinhos. Nem bater à  máquina. ( Para os jovens informo: quando havia máquina de escrever,bater à máquinaproduzia um ruídozinho que para os alemães era ensurdecedor). Então, a partir da 10 tinha que escrever à mão .
Desde criança  que nos dizem: a sua liberdade ( ou  o seu direito_) termina onde  começa o meu. É bonito, não?
Talvez os alemães estejam exagerando  com o silêncio deles.
Talvez os brasileiros estejamos exagerando com o nosso barulho.
Já, quando à pipoca você decide.

(Estado de Minas,14.07.2012)