sábado, 28 de julho de 2012

Desafio Literário - junho: Criando Kane

Era para o livro ser lido em junho. Mas eu não dei conta. Não por algum defeito do livro. Foi única e exclusivamente pela falta de tempo que me consumiu nesse primeiro semestre de 2012. Comecei a leitura no tempo certo e só terminei hoje. Assim, atrasei também a leitura do mês de julho (O Hobbit), mas como é um romance, acredito que vai fluir mais rápido.

Pauline Kael é considerada a maior crítica de cinema de todos os tempos. Foi mais odiada que amada, como, em geral, acontece com os críticos. Ela era ferina, não deixava passar nada. Em geral, assistia a um filme só uma vez e tinha uma memória espetacular para as películas. Californiana, foi criada num rancho, estudou Filosofia e gerenciou um cinema de arte antes de se dedicar exclusivamente às críticas.


Criando Kane é uma coletânea de 11 ensaios em que ela analisa filmes a fundo e também fala sobre a produção cinematográfica, a questão da indústria, dos números e sua influência na produção, sobre como a televisão influenciou a indústria cinematográfica. O ensaio principal é Criando Kane, em que ela disseca o filme Cidadão Kane, considerado até hoje a melhor produção cinematográfica do mundo. O filme é muito bacana, porque reúne uma série de técnicas até então complexas, como profundidade de campo, posicionamento de câmera, uso de espelhos e outros. O roteiro é meio bobo e, por isso, muita gente não vê tanta genialidade assim no filme. E é sobre o roteiro que Pauline Kael mais fala nesse ensaio. Ela conta como ele foi escrito, por um jornalista e argumentista beberrão, Herman Mankiewicz, baseado na vida de um magnata da imprensa americana, William Randolph Hearst. Conta como o filme foi perseguido por esse magnata, que fez tudo para que seu lançamento não existisse. Como a carreia do diretor Orson Welles foi abalada por uma perseguição velada, enquanto a do roteirista Mankiewicz foi destruída com o uso da cadeia de jornais de Hearst. O texto conta, ainda, como Welles tentou se apropriar do roteiro, comprando o direito de assinatura por ele, e como Makiewicz conseguiu burlar esse fato e ter seus créditos no filme. O ensaio recebeu uma carta-resposta irada de Orson Welles (infelizmente, a carta não veio no livro...).

Kael é dura com quase tudo e com quase todos. Em especial, no último ensaio, quando ela fala sobre a profissionalização da indústria do cinema, quando os executivos dos estúdios, que nem sempre entendem de cinema, decidem que filmes serão feitos, quais serão engavetados, quais nunca serão produzidos. E explica porque alguns argumentos passam de mão em mão durante longos anos e nem sempre são filmados (mais ou menos o que aconteceu com o projeto de Na Estrada, que virou filme recentemente, dirigido por Walter Salles).

Mesmo sendo dura na queda, fica nítida a sua paixão pela sétima arte. Ela foi criada numa época em que a diversão era ir ao cinema. Bem o que Martin Scorsese conta em Conversas com Scorsese - que a vida se resumia entre escola, casa e cinema. Ela é tão apaixonada que, não por acaso, a última frase do livro é: "Talvez haja um deus distinto para o cinema, por falar nisso".