segunda-feira, 2 de abril de 2012

O que era pra ser adequado

Ontem foi aniversário da minha irmã. Acho que ela e a Flavinha, minha cunhada, são as pessoas que eu conheço que mais amam fazer aniversário. As duas ficam de butuca ligada, esperando o telefone tocar, as mensagens chegarem via celular ou computador, os abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim. Eu, que não curto aniversário, acho tudo isso muito engraçado. Mas ontem no aniversário da Laura, acabei tendo mais uma decepção daquelas.

Com o tempo (e a análise), aprendi a enxergar algumas coisas que, antes, não via. Abrir os olhos faz a gente ver o mundo mais colorido. As coisas ficam mais intensas, mais bonitas. Mas o que é feio, disforme, inadequado também cresce e aparece. E, ao ver melhor, acabei exergando algumas coisas muito ruins com relação à minha família. A principal delas é que algumas pessoas não sabem - e não se esforçam para - lidar com a Laura. Ela tem um transtorno, está em tratamento constante. Ela estuda, trabalha e tenta levar uma vida normal (ou neurotípica, como dizem).

E vem uma sujeita e resolve brigar com a Laura. Colocar nela toda a "culpa" das escolhas erradas que a sujeita fez. Laura tem culpa disso? Não. Mas a sujeita precisa colocar a culpa em alguém, e a Laura foi a escolhida, desde sempre. O que fazer, se a pessoa é uma imbecil e resolve agir assim?

Ontem foi aniversário da Laura e ela ficou o dia inteiro esperando telefonemas, abraços e etc. E a sujeita em questão conseguiu ser babaca o suficiente para não ligar. Repetindo: a pessoa que diz ser "católica, apostólica, romana", caridosa e rezadora, um exemplo de ser humano, simplemente decidiu IGNORAR o aniversário de uma pessoa que está em tratamento médico e PRECISA de carinho e atenção.

Aí eu pergunto:
1) dá pra confiar na postura religiosa de uma pessoa assim?
2) dá pra confiar nela como pessoa (deixando de lado a questão da religião)?
3) como crer no futuro da humanidade, quando há alguém assim?

Eu respondo: 1) não; 2) não; 3) ainda é possível. Porque há algumas pessoas no mundo que me dão esperança. Meus sogros, cuidando da Flavinha, por exemplo. Fazem de tudo pra ela se sentir bem. E, dentre outras, a Andréa, minha amiga da época da faculdade, que tem um filho autista e escreve sobre a convivência com ele, seu aprendizado, suas vitórias. Ela transborda de amor pelo Theo. Para ler, aprender e se emocionar com essa mãe exemplo, é só vir ao Lagarta vira pupa, o blog dela. Fala se não é maravilhoso o texto "Bem-vindo à Holanda", que não é da Andréa, mas que diz muito sobre como lidar com as diferenças?

Enquanto minha avó se descabelava, pedindo por favor que a sujeita ligasse pra Laura e desse os parabéns, eu já anunciava o que iria acontecer: a sujeita ia, independente do que a minha avó falasse, dizer que a Laura estava fazendo intrigas, colocando a minha avó contra ela. Meus tios estavam em casa e viram tudo: viram a Laura inquieta com a falta do telefonema, mas sem dizer uma palavra sobre o assunto. Viram minha avó ficar mais ansiosa enquanto o dia passava, e perguntar pra Laura, a cada telefonema, quem tinha ligado. Viram vovó  pedir à sujeita que se comportasse como gente. Viram exatamente o que a sujeita fez ao falar com a Laura, viram minha avó chorar com a situação (note-se que vovó tem quase 94 anos) e dizer que essa é a única coisa no mundo que a deixa triste.

Se há alguma coisa que me fez ficar feliz com essa história foi que, pela primeira vez, tivemos testemunhas de como a sujeita age. Porque, da porta pra fora, ela é a santa canonizada. E, finalmente, alguém de fora viu o pão bolorento que há por dentro. Tio Jésus e Tia Vera ficaram escandalizados.