domingo, 8 de abril de 2012

Mônica em cartas #6

Querido B.,

São cinco horas da manhã. Parece que o sol vai nascer, mas está com preguiça, do mesmo modo que nós ficamos quando temos que acordar para ir para a escola. Agora, eu queria jogar a coberta por cima do sol e deixar ele bem quietinho. Não quero acordar, quero que esta noite nunca mais termine.

Tenho medo do que vai acontecer assim que o sol romper no horizonte. Porque vai chegar a hora de dizer adeus a todos que eu amo e partir para uma nova vida, vida que não quero para mim. Porém, mais uma vez, não posso falar, não posso lutar, não posso fugir. E, por isso, tenho pensado muito em aceitar, fazer o Jogo do Contente e deixar a Poliana aflorar em mim. Vai ser difícil ter de me adaptar a tudo de novo.

Por outro lado, posso pensar que conhecer novas pessoas pode facilitar tudo para mim. Conhecer pessoas que não sabem direito quem eu sou me dá a possibilidade ser aparecer melhor aos olhos deles, não é? E não a menina esquisita, que é como todo mundo me vê aqui. Posso não ser mais aquela que fica sempre sozinha na hora do recreio. Posso não precisar mais chorar. Isso quase me anima. Mas, por outro lado, me enche de saudades, já, das pessoas que eu amo e que vão ficar por aqui.

Não terei coragem de entregar essa carta a você. Ela vai ficar onde sempre deixei todas as cartas que escrevi até hoje, escondida naquela fenda da garagem do prédio. O lugar desta e das outras é lá. Sim, me falta coragem. Para entregar tudo aos meus destinatários, para dizer o que sinto, para fazer um levante e não me mudar. Esta coragem, vou deixar para depois.

Um abraço fraternal,
Mônica