quarta-feira, 4 de abril de 2012

Livro: Precisamos falar sobre o Kevin

Comprei o livro antes de ver o filme. Eu sabia que ficaria impactada com a história da mãe que tem de se haver com o fato de que o filho promoveu uma chacina na escola. A intenção era ler antes e ver o filme depois. Coisa que eu conseguiria fazer caso o cinema de Ouro Preto não tivesse um delay significativo em relação ao circuito de Belo Horizonte. O filme saiu de cartaz em BH e, um tempo depois, entrou aqui em OP, de modo que vi antes de ler. E não me arrependi, o filme foi muito fiel à narrativa de Lionel Shriver.

O livro é escrito em primeira pessoa por Eva Katchadourian, a mãe do Kevin do título. Ela escreve cartas intensas e cheias de emoção para Franklin, seu ex-marido e pai do adolescente matador. As cartas são uma espécie de terapia, um acerto de contas de Eva com o passado. Ela rememora sua vida independente de editora de charmosos guias de viagens, a ascendência armênia, a mãe com agorafobia, o namoro com Franklin, a decisão de ter filhos, o nascimento de Kevin, a rejeição que sentiram um pelo outro e o desenvolvimento do garoto.

Eva é cruel com ela mesma. Ela assume sua culpa e acha que deve pagar pelos erros do filho. E suas cartas a Franklin são um relato cruel, duro e punitivo do que ela passou com Kevin, do que ela inflingiu a ele. Se foi a relação dos dois que levou Kevin a assassinar nove pessoas e ferir duas, não dá para saber, só para especular. É possível que Kevin tenhas nascido psicopata, é possível que ele tenha se tornado um. O interessante é que o relato é de Eva, e por ouvirmos somente a voz dela, tendemos a achar que Kevin é o vilão da história. E as marcas que ele deixou nos pais, na irmã, nos vizinhos, na professora de artes e nos colegas assassinados realmente são motivos suficientes para odiarmos o adolescente. Mas, ao mesmo tempo, isso não é desculpa para amarmos Eva ou ficarmos do lado dela.

Na quarta capa do livro estão partes das resenhas de Veja, O Globo, The New York Times e The Guardian. A resenha de O Globo diz que é uma bofetada a cada página. E é isso mesmo. Acho difícil alguém ler esse livro como se fosse ao shopping, porque há coisas tão marcantes ali, tão intensas, que abalam. Seja a postura de Eva, tão dura com Kevin, seja a postura dele, tão debochado e irritante com ela.

Ambos, livro e filme, me deixaram sem chão. Com medo mesmo de ter filhos e com medo dos filhos de outras pessoas. Mas a esperança, aquela última praga da Caixa de Pandora, insiste em ficar viva.