sábado, 10 de março de 2012

O caso da tamareira

Quando meu padrinho fez 80 anos, os irmãos dele se reuniram para oferecer um presente inesquecível. Ele era padre, e nunca tinha ido a Jerusalém. Então, o presente foi uma excursão para a Terra Santa, passando pela Itália, com a tradicional visita ao Vaticano, Grécia, Turquia e Egito, finalizando em Israel. Na Turquia, acho, vovó comprou uma muda de tâmara e trouxe para plantar lá em casa.

Só um adendo: a viagem foi mesmo inesquecível. Meu padrinho já estava iniciando um processo de Alzheimer, mas ninguém tinha percebido ainda. E quando um paciente de Alzheimer sai do seu ambiente normal, a doença se acelera. Foi o que aconteceu com ele: foi do aeroporto direto para o hospital e, daí, o quadro só se agravou.

Mas voltando à tâmara: vovó chegou em Ouro Preto e resolveu plantar a tamareira no último patamar do quintal. Num cantinho, com um pouquinho só de terra. A ideia nem era ter uma palmeira de verdade, com frutos e tudo. Era só ter uma lembrança da viagem que, até então, tinha sido só positiva. No mesmo patamar, há um zilhão de anos, tinha uma goiabeira grandona. Ela foi cortada, por conta de infiltrações no terreno, e cimentaram em cima. Uns anos depois,  nasceram mais três goiabeiras, furando o cimento. Então, o último patamar era o das árvores: três goiabeiras e uma tamareira.

E a tamareira cresceu bastante. O tronco ficou pequenininho, mas as folhas ficaram mais altas que as goiabeiras. E ficavam lindas, dançando com o vento.

Mas aí houve aquela chuvarada do começo do ano. E ficamos sem água. E o moço que veio colocar água na caixa e consertar o telhado viu que as raízes das goiabeiras estavam, de novo, pressionando o muro e deixando água infiltrar, com risco do patamar cair. A solução: cortar as goiabeiras. Enquanto o trabalho foi sendo feito, apareceram umas raízes diferentes. Eram da tamareira. Sem ter para onde crescer, a raiz se espalhou pelo terreno de um forma tão maluca, que só vendo mesmo pra entender. A culpa não era das goiabeiras, mas da tâmara, pequenininha, ali no cantinho.


Primeiro, arrancando as goiabeiras

Olha a tamareira criminosa la no fundo!

Ela, já sem as folhas, com o tronco curto

A raiz assassina que se espalhou por todo o terreno


Agora estamos sem goiabeiras e sem tamareiras. E o muro, devidamente consertado, não vai nos assustar mais.