quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O caso da mão esquerda

Foi em 1986. A escola estava em greve e nós passávamos os dias inventando coisas novas pra fazer. Uma delas era ir ao Parque Julien Rien, no Anchieta. Havia um bown, mas quase sem skatistas. E nós usávamos a área como um escorregador gigante. Óbvio que não ia dar certo. Eu caí sobre a mão esquerda virada. Foram um mês e meio de imobilização, pelo menos sem quebra.

Daí, na década de 1990, veio o vôlei. Imagina a graça: meus 1,59m tentando jogar vôlei. Me dei melhor como levantadora (mas em geral, era péssima jogadora), e levava pancadas e mais pancadas na mão esquerda. Resultado: vivia no Instituto de Ortopedia e Traumatologia, o IOT, que funcionada na Av. João Pinheiro, em BH. Parei de jogar e fui tocar teclado. Claro que não ia dar certo... terminei o curso, cheguei a dar aulas, mas a mão esquerda não me deixava fazer tudo direito, era mais lenta que a direita e doía bastante. Abandonei a música.

No fim de muitos anos de visitas a médicos e ao setor de fisioterapia, descobri que o problema foi o descolamento de uns ossos da palma da mão, e que eu deveria não forçar. Ok, ok, aprendi a conviver com isso e tudo foi bem até, sei lá quantos anos depois, a bike voltar pra minha vida. Porque, né, eu caio o tempo todo! Ainda não acostumei a desclipar a sapatilha a cada parada, o que significa um festival de tombos bobos (na gíria da bike, cair é lotear o comprar um terreno. Eu já loteei horrores!). Todos tombos com a bike parada, só porque eu não consigo tirar a sapatilha do clipe do pedal no tempo certo.

O último tombo veio no meio de janeiro. Como fazia tempo que eu não pedalava, decidi não pegar o single track (o caminho "fininho", onde só passa uma bike e que exige um equilíbrio e um controle enormes). Fui pelo crosscountry mesmo, o estradão que eu adoro. Cheguei muito antes do resto do povo ao ponto de encontro e, na hora de descer da bike, olha lá meu pé preso de novo! Caí e bati o cotovelo. Levantei, joguei água no cotovelo ralado (arranquei muita pele solta...), na perna também ralada e coloquei a bike de lado. Sentei e esperei a galera chegar. Conversamos, mostrei o machucado, rimos e o pessoal se preparou para voltar pro carros. Foi só subir na bicicleta que eu percebi que não conseguiria continuar a andar. A mão esquerda não funcionava, não consegui segurar o guidon nem passar a marcha dianteira. Chamei Leo e disse que ia caminhando.

Fui ao pronto atendimento e não deu nada na radiografia. Contei a história anterior e o médico me disse para procurar um especialista. No dia da consulta, ele também não viu, mas pediu uma artrorressonância (ô exame terrível!). Esta mostrou muita cois: esgarçamento e ruptura do ligamento radiolunopiramidal e fratura do osso hamato, com múltiplas fraturas trabeculares. Conclusão: carnaval sem pedal, enquanto a turma toda pedalou todos os dias. E hoje, o médico declarou: mais um mês de molho e já no fim de março posso voltar a pedalar. E a cair de novo, porque, vamos combinar, ainda estou me adaptando às sapatilhas clipadas.