terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Livro: As Esganadas

Daí que o Jô Soares lançou outro livro. E meu sogro leu e achou que eu poderia gostar. Logo, estava eu com ele nas mãos. Calhou de, no dia de começar a ler, eu ter enfrentando algumas horas de viagem de ônibus e algumas horas na sala de espera de um consultório médico. Acabei lendo tudo em um dia só.

Seguindo a linha dos seus livros anteriores, Jô cria um assassino em série que é, logo de cara, apresentado ao leitor: Caronte, o condutor da barca do Inferno, no rio Estige. Este é, aliás, o nome da funerária de propriedade de Caronte. Conhecemos suas motivações, seus métodos e sua vida. Não deixa de ser engraçada a abordagem às suas vítimas: com doces portugueses. Elas, apenas mulheres obesas. Que morrem por asfixia, com o estômago recheado de comida portuguesa.

O trabalho de pesquisa para a composição do livro é muito legal. Dos nomes das ruas do Rio de Janeiro de 1938 até a vida de personagens históricos que, aqui, fazem parte do enredo. Filinto Müller, o temido chefe da polícia de Vargas, aparece pouco, mas é bastante citado pelo delegado Melo Noronha, que se sente pressionado pelo figurão. Na investigação, ele conta com a ajuda de seu oficial, Calixto; e de um ex-detetive português, Tobias Esteves; e de uma jornalista destemida, Diana de Souza.

A história é legal, sim. O chato são as piadinhas sem graça do Jô, que faz trocadinhos infames e usa de gags tão batidas que dá preguicinha. Por exemplo: "O tropel transforma O ouro do Reno, de tragédia épica, em tragédia hípica". Ou quando Tobias Esteves comenta que seu bigode é de família e alguém pergunta se seu pai usava bigode. Ele responde que era sua mãe quem usava. E tem es estereótipos: piadas com poprtugueses, com obesos, com anões. Praticamente reeditadas dos dois outros livros dele que eu li, O Xangô de Baker Street e O homem que matou Getúlio Vargas. Afff...

Fora isso, é HERESIA usar meu poema favorito entre todos do mundo, de autoria do Álvaro de Campos (o melhor heteronômio do Fernando Pessoa), para introduzir Tobias Esteves. Tabacaria, de 1928, é o que de mais bonito já se escreveu sobre a modernidade, sobre o vazio da vida e as questões que, anos mais tarde, fazem a alegria dos terapeutas, analistas e psiquiatras.

Um livro interessante, agradável e que pode até ser engraçado pra quem já não se cansou das mesmas piadas de sempre do Jô Soares.