quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Desafio Literário - Janeiro: Hitchcock Truffaut


Seu eu contar que estou ainda mais apaixonada pelo Hitchcock...

O livro foi escrito pelo cineasta francês François Truffaut, um dos fundadores do movimento Nouvelle Vague e também um dos editores da Cahiers du cinéma, a revista francesa mais influente do mundo do cinema. Para o grupo, Hitchcock era um dos maiores diretores do mundo, mas ele era ignorado ou massacrado pela crítica americana. Truffaut decidiu, então, fazer uma longa entrevista com Hitchcock, contando com a tradução de uma amiga. Foram vários dias de conversa e a entrevista gerou a primeira versão desse livro. Após a morte de Hitch, nova edição foi realizada, com Truffaut acrescentando informações sobre os filmes que ficaram de fora. E a Companhia das Letras fez a minha felicidade ao lançar esse livro, com prefácio de Ismail Xavier e muitas fotos das produções desse diretor que eu adoro.

Sou suspeita pra falar do Hitch. Não conheço todos os seus filmes, mas adoro todos os que já vi, com destaque para Festim Diabólico (meu favorito), Interlúdio, Psicose e Um corpo que cai. O diretor é considerado o mestre do suspense, com razão. Seus filmes são de arrepiar. E, no livro, ele conta como consegue produzir essa sensação nos espectadores. Um dos motivos de trabalhar com o medo, segundo ele, é ter sido educado em um colégio jesuíta, em que o medo era difundido, por conta da punição divina. Ele afirma, em várias passagens, que tem medo da polícia, por exemplo.

Hitch começou sua carreira como eletricista, depois passou a ser desenhista no cinema e, assim, chegou a diretor. Ele desenhava cada cena, de modo que o operador da câmera tivesse só que seguir o desenho, sem margens para criação. Dirigia com mão de ferro toda a produção - em uma passagem ele fala que no set de filmagem não é lugar de improvisar. Ele também conta alguns de seus truques de filmagem, como os posicionamentos de câmera, a criação de objetos maiores do que os orginais para conseguir enquadramentos mais interessantes e os filtros nas câmeras, por exemplo. Também explica como aconteceram as filmagens de Festim Diabólico, um filme criado para não haver cortes e que se passava entre 18h30 e 22h - o cenário por trás da janela do apartamento onde se passa o filme era três vezes maior do que o ambiente da ação; a captação do som de modo mais realista; os móveis e paredes que tinham rodinhas para serem retirados do cenário enquanto a câmera caminhava. Nesse filme, tudo foi feito com uma precisão milimétrica que me deixa de queixo caído a cada vez que vejo de novo.

O diretor era também um montador, o que explica que seus filmes sejam tão redondinhos. Ele fala muito da importância de decupar o filme para que fique um trabalho bem feito. E contrapõe o trabalho em Festim Diabólico, com a ausência de cortes, com a cena da morte de Marion em Psicose: são 45 segundos e mais de 70 cortes que impactam totalmente o espectador. Ele até mesmo afirma que Psicose é um filme da humanidade, levando-se em conta o impacto tanto da história quando de todo o processo de manufatura da película e do retorno do público. 

Muito interessante, também, é quando ele comenta a questão do diálogo, nos roteiros. Para Hitch, o diálogo só deve existir se realmente for necessário ao filme. E é muito comum a existência de diálogos para justificar alguma coisa na narrativa. Para o diretor, a câmera e o mise-en-scène deveriam ser mais importantes que os diálogos. E, se a gente for pensar bem, muitos filmes perdem um tempo precioso com diálogos inúteis.

A entrevista parece tão espontânea quanto uma conversa na sala de casa, em que o leitor (eu!!!) toma parte e viaja pela filmografia e pelas ideias do Hitch e do Truffaut. A vontade é continuar a leitura - como se fosse possível! - e assitir a todos os filmes citados, inclusive os quem nem existem mais, do início da carreira do diretor, ainda na Inglaterra. Recomendo pra todo mundo que gosta do Hitch, de filmes de suspense, de filmes em geral, do desenvolvimento do cinema, da arte cinematográfica em si. Muito, muito bom.