terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Das marcas que a chuva deixou

Choveu muito aqui em Ouro Preto em novembro. Em dezembro, que eu me lembre, só três dias secos, o restante com muita chuva. Começou com uma encosta do Morro da Forca deslizando em cima da secretaria de Meio Ambiente e do mercado Varejão da Estação. Depois foi o deslizamento na rua 13 de Maio e o perigo para várias casas. E os danos nos distritos, especialmente em Antônio Pereira. Dia 31 de dezembro de 2011, a Prefeitura decretou estado de emergência.

Enquanto tudo isso acontecia, eu comentava com a Adriana, que trabalha comigo, sobre empatia, que é, a grosso modo, a possibilidade de sentir a dor do outro, de se colocar por inteiro no lugar do outro. Eu dizia que não consigo me ver no lugar de quem perde tudo numa tragédia natural, numa enchente, num deslizamento. Que tudo isso parecia tão longe da minha realidade, quase como uma história de ficção. Mesmo morando em BH por tanto tempo e tendo sempre notícias de enchentes. Mesmo morando em OP e vendo os morros deslizando de tempos em tempos. Mesmo trabalhando em Ponte Nova e vendo o rio Piranga subir assustadoramente, derrubando pontes, entrando em casas e lojas e deixando uma trilha enorme de lama e destruição. Nunca consegui sentir a dor de quem perde tudo ou quase tudo assim.

E hoje, 3 de janeiro de 2012, pela primeira vez eu me senti perto demais de uma tragédia dessas. Acordei de madrugada com as sirenes de bombeiros, passando pela minha rua. Imediatamente, pensei no pessoal da Piedade, da rua 13 de Maio. Não consegui mais dormir. Quando, pela manhã, cheguei ao trabalho, vi o tamanho da destruição. Um morro desceu em cima da rodoviária. E matou pelo menos uma pessoa, um taxista, que dormia no carro, esperando por possíveis clientes que chegariam ali logo mais.

Mas fui egoísta, pois não pensei no taxista morto nem no que está, até agora, desaparecido, talvez sob os escombros. Pensei na casa ao lado da rodoviária. Nela moram a irmão da namorada do meu tio, com o marido e os dois filhos. Nas primeiras fotos que vi (a maior parte está aqui) parte da casa estava destruída. Pensei na mulher, no marido e nos filhos, que eu mal conheço. Pensei em como seria estar em casa, talvez dormindo, talvez numa conversa tranquila, e, de repente, a força da natureza se fazer presente. O barulho, a força da terra e da água, o telhado desabando. Tentei buscar notícias da família e recebi uma ligação da Ione, dizendo que estavam todos bem, tinham saído da casa pelos fundos sem nenhum arranhão. Senti um alívio enorme, nem sei descrever. Chorei, sentindo emoção, alívio, tristeza, medo. E só depois pude pensar nos dois que ficaram debaixo dos escombros.

Desceu tanta terra, mas tanta terra, que é praticamente impossível restar alguma vida lá embaixo. É difícil demais pensar que, de uma hora para outra, simplesmente certas coisas deixaram de existir. Um pedaço de uma montanha, uma rua, parte da laje da rodoviária, os banheiros do terminal, os carros que ficavam lá embaixo, esperando passageiros. Os carros aos quais eu sempre recorria, praticamente todo domingo em que voltava de BH, cansada, cheia de malas e de planos de descançar para recomeçar a semana.

Ainda não há riscos para a minha casa, para a casa da Tia Ylza. Não sei até quando, porque a previsão é de mais chuva, até o fim da semana. Já choveu, nos três primeiros dias de janeiro, mais do que era esperado para meio mês. É muita água caindo. E junto com a água, vai acumulando um medo enorme de que aconteça tudo de novo, em outro lugar, com mais vítimas, mais dor, mais lamentos. Medo, é isso que está nos cercando agora.

Enquanto isso, a chuva continua chovendo. E o sol até chegou a aparecer. Com disse o Lucas de Godoy, que fez as primeiras fotos do deslizamento, "'Uns dia chove, outros dias bate sol' e a coisa aqui vai deixar de ficar preta!". Porque, mesmo com tudo de ruim, ainda há esperança de dias melhores.