quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Navetes e frivolité

Quando a gente vem de uma família que faz artes - meu bisavô Camillo gostava de dizer que as mulheres prendadas era de "mão cheia", com cada dedo representando uma arte diferente -, a gente aprender a conviver com agulhas, linhas, lãs, máquinhas de costura e objetos estranhos, como um quadrado de madeira cheio de pregos, para fazer almofadas. Vovó é especialista em crochê, faz cada coisa linda. Só não tem feito mais porque se queixa que as mãos tremem.

Tia Ylza eu nem preciso dizer, né? Tem muita coisa dela aqui no Janela (por exemplo, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Tanto ela quando a vovó aprenderam com as mães e avós a fazer essas artes todas. Vovó sabia fazer uma série de coisas com taquara, chapéus e alguns tipos de bordados, como o vagonite. Também era costureira de mão cheia, fazendo de tudo até pouco tempo atrás. Tia Ylza fica só no tricô mesmo, mas também sabe bordar muito bem (ela me ensinou o básico do ponto de cruz e do ponto cheio, mas eu sou muito ruim nessas coisas). A avó dela, chamada de Vovó Conceição, sabia fazer renda de bilro, igual o pessoal do Rio Grande do Norte. Tia Ylza conta que Vovó Conceição fazia a renda com a maior facilidade, mesmo já doente, de cama, sem poder andar. E a mãe dela, Vovó Enoe, fazia frivolité, que dizem ser a renda com nós.

Eu nunca tinha ouvido falar do frivolité até que a Ju Machado, minha amiga, perguntou se eu tinha uma navete, que vem a ser a "agulha" pra fazer o frivolité. Não, Ju, eu nem sei o que é isso, mas vou procurar. Pra saber mais sobre o frivolité, tem umas fotos aqui e uns vídeos aqui.

Perguntei pra Tia Ylza e ela me contou que Vovó Enoe fazia muito bem, e que ela mesma nunca aprendeu. E vovó também contou que ela mesma fazia, mas não se lembra mais. Ela contou que, com uma camisa do vovô, ela fez um pagãozinho pro Paulo, primeiro filho dela. Costurou o pagão e fez o acabamento todo com frivolité. E também tinha feito uma florzinha, mas não continuou o trabalho.

Procura daqui, procura dali, não é que vovó achou? As navetes, o pagãozinho que ela fez e a tal florzinha.

As navetes, a florzinha e o pagãozinho

Detalhe do pagão e a florzinha, em cima da navete

Uma das navetes ainda estava com linha, olha só!

A pergunta que não quer calar é como - oh, céus - uma agulha dessas consegue fazer esse trabalho tão delicado... 

O pagãozinho e a florzinha voltaram pro armário. As navetes tiveram um destino mais digno. Como vovó não sabe mais fazer e nem quer se recordar; como eu não vou aprender mesmo... nada melhor do que entregá-las pra alguém que vai fazer bom uso. Elas tomaram o rumo de Sete Lagoas. Ju vai pegar aulas com D. Elva e produzir frivolité por aí.