segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Conto: Suposição

Aqui todas as pessoas se cuidam. Parecem bonitas. São bonitas. Usam roupas da moda; as garotas dão nós nos cintos, os garotos usam camisas divertidas e tênis coloridos.

Só eu sou gordo.

Todos parecem felizes e importantes, com mil histórias novas pra contar, lugares onde passaram as férias, os filmes que viram no fim de semana, os parentes, as casas de campo, os carros, os motores, as conquistas amorosas.

Só eu sou gordo.

Eles passam aos bandos, fazendo barulho e sorrindo, divertidos com o simples fato de viverem. Guardam um riso para cada ocasião e o compartilham a todo o tempo. Seguem um padrão bem definido.

Eu, que sou gordo, não sigo esse padrão. Não sou a pessoa certa, sou inapropriado. Vejo olhares de dor, de pena e de asco enquanto passo.

Eles acham que eu preciso emagrecer.

Eu acho que eles precisam crescer.

Eles tentam ter uma identidade. Eu já tenho. Sou gordo e isso me basta. Não quero tentar ser fashion, nem descolado, nem ir pra Disney nas férias de julho. Não uso o perfume da moda, o jeans maneiro, não tenho carro. Não é isso que me fará feliz.

Sou gordo. Não quero tentar ser alguém.