quarta-feira, 2 de novembro de 2011

31 de outubro

É um dia interessante. Ao mesmo tempo, Dia da Dona de Casa e Dia das Bruxas. Será coincidência? Mas não é sobre isso que queria falar. É sobre o Drummond. Porque 31 de outubro também é dia de Carlos Drummond de Andrade.


O fato é que eu adoro o jeito pessimista dele. Adoro os livros de crônicas também, mas os poemas são os melhores. Drummond é de Itabira, relativamente perto de Ouro Preto. E, pelas linhas malucas da vida, temos uma relação familiar em comum. Minha tia Pitu era prima dele. Ela se casou com meu tio Geraldo, irmão da vovó. Por conta desse laço e também pela literatura, ele foi amigo do meu padrinho. Eu não pude usufruir desse contato, mas fico feliz que ele tenha existido.

Tem gente que fez homenagem lendo poemas dele. Eu gostaria de ter feito isso, mas tenho um problema grave de timidez. Minha época de ficar em frente a câmeras já passou e eu não tô mais a fim de pagar esse mico. Nem pelo Drummond.

Mas vou trazer o poema dele que mais gosto, Sentimento do mundo. Tá atrasado, mas vale, né?



Sentimento do mundoCarlos Drummond de Andrade
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.


Perfeito, Drummond. Perfeito.