quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Os fones de ouvido

Quando a gente tem uma família grande e mora num apartamento pequeno, aprende logo a ouvir música bem baixinho, porque as pessoas em volta não têm o mesmo gosto musical. Eu aprendi direitinho, apesar de que a pessoa quem ensinou é daquelas do "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" e ouvia suas aberrações musicais na maior altura e ninguém podia reclamar. O fato é que ninguém tem o direito de ferir os ouvidos alheios só porque ama uma música X.

Só que não é isso que a gente vê por aí. Lembro bem que meu trauma com U2 começou aqui em Ouro Preto, quando meu padrinho estava na UTI em BH e eu vim pra cá para ajudar a vovó a montar um quarto hospitalar pra ele. As visitas na UTI eram às 15h30 e às 16h cada família se reunia com o médico pra saber o que estava acontecendo. Por volta das 16h30 alguém ligava aqui pra contar as novidades do hospital. Nessa mesma hora, entre 16h e 16h30, um calouro da Ufop e morador de uma das repúblicas daqui de frente chegava, abria as janelas do quarto e colocava Sunday Bloody Sunday na maior altura para tocar, e no repeat. Não lembro mais onde está (provavelmente no lixo), mas eu tinha uma espécie de tabela, em que marcava quantas vezes essa música tocava enquanto não recebíamos o telefonema de BH. Era uma verdadeira tortura. Não consigo escutar U2 até hoje.

O mundo gira, a lusitana roda e volta e meia a gente vê alguém recomendando que os fones de ouvido sejam distribuídos junto com a cesta básica. Isso me faz rir e lembrar daquele tempo. Mas no último sábado, quase peguei o meu fone e doei. Só não fiz isso porque...

Eu voltada da aula de direção. Em geral, venho no ônibus das 12h, mas me atrasei fui fazer compras no Verdemar e cheguei a tempo de pegar o ônibus das 13h. Fui a primeira a entrar e sentar e estava lá quietinha quando chegou o cara que sentaria do meu lado. Bem vestido e bem mal encarado.

O ônibus veio lotado, no BH Shopping o auxiliar já estava avisando que não tinha mais lugar. E foi só passar do shopping que o sujeiro começou a me cutucar com o cotovelo. Ok, acontece. Eu quase fiquei grudada na janela pra dar bastante espaço pra ele. Fiquei lá, feliz (a aula foi muito boa), admirando a paisagem linda e toda queimada (ô incêndios terríveis). Foi quando o meu vizinho tirou um celular de uma sacola e colocou uma música chata mega alta nele.

Olhei pro lado pra pedir a ele pra, pelo menos, abaixar o volume, mas ele fez uma cara tão brava pra mim que me deixou com medo. Voltei quietinha pra paisagem queimada e observei que o sujeito que estava na minha frente virou-se com a mesma intenção que eu. Mas também ficou com medo da cara do meu vizinho de poltrona. Tive esperanças quando o auxiliar passou para olhar as passagens. Mas ele não se manifestou e eu nem tive coragem de pedir a ele para que fizesse o moço do lado desligar a música. Ninguém mais quis pedir pro cara desligar.

Sem ter o que fazer, pensei em abrir a bolsa, pegar meus fones de ouvido e, gentilmente, ceder pro sujeito. Mas pensei que ele poderia me enforcar com aqueles fios. A solução era usá-los de outro modo. Pedi desculpas pro meu sogro, que é otorrimo, peguei o Ipod, coloquei os fones de ouvido e passei a viagem inteira escutando Adele e Amy Winehouse no último volume. Coitados dos meus tímpanos.