quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Filme: Morango e chocolate

Fresa y chocolate - 1994 (mais informações aqui)
Direção: Tomás Gutiérrez Alea, Juan Carlos Tabio
Roteiro: Senel Paz
Elenco: Jorge Perugorría, Vladimir Cruz, Mirta Ibarra

A ilha de Cuba sempre causa curiosidade, por estar há tanto tempo isolada do mundo. Para o turismo, há abertura, lenta e gradual. E foi por meio do turismo que eu estive mais próxima do filme. Morango e Chocolate faz alusão à Copelia, a maior sorveteria de Cuba. Para nós, que estamos tão distantes, não é tão simples perceber que "morango" e "chocolate" é uma forma mais simpática de expor o conflito entre heteros e homossexuais na ilha.

Em 1979, o universitário David toma um sorvete de chocolate na Copelia - o sabor é escolhido pelos homens. Ele é abordado por Diego, que pede para sentar na mesma mesa. Diego toma sorvete de morango, que só é opção para as mulheres ou para os homossexuais. A mensagem é clara: Diego quer David. Miguel, amigo de David, é do partido comunista e está à caça de subversivos. Ele acredita que Diego tem grande potencial para ser subversivo e convence o amigo a ir atrás do homossexual. E assim começa a relação entre David e Diego.

Para começar, poder ver Cuba é uma delícia. Das ruas com os carros que pararam nos anos 1950, as escadarias ainda imponentes, apesar de degradadas, os detalhes kitch das casas, os pôsteres de Che Guevara são imperdíveis, na paisagem, na direção de arte e na crítica à situação política da ilha. A casa de Diego fica acolhedora com tantos livros espalhados pelo chão, e as obras de arte que são o ponto de discórdia entre ele e o regime de Fidel. A geladeira velha, Rocco, só funciona quando quer. As imagens de santos espalhadas pela casa também afrontam o estado que, além de laic, é rompido com a igreja católica. As garrafas de Red Label que Diego esconde são bebidas "del inimigo". E ainda há revistas Time e fotos de Marilyn Monroe e de peças de Andy Warhol ao fundo.

O envolvimento de Miguel com o partido faz com que David procure o tempo todo as influências estrangeiras de Diego, para entregá-lo. Ele chega a dizer que estuda Ciência Política para ser útil, em vez de estudar literatura, que é perda de tempo. Diego acaba assumindo uma espécie de missão ao apresentar o rapaz a um mundo maior do que o que cerca a ilha.

Diego também mostra que, apesar de aparentemente tolerado, a homossexualidade é um tabu em Cuba. "Não sou enfermo nem anormal. Faço parte desse país e tenho direitos como todos", ele afirma. E, ao ensinar David a pensar além da caixa da ilha, vira uma espécie de tutor, falando sobre arte, história, literatura cubana, arquitetura. Todos esses assuntos, sem exceção, caem na discussão política, na desesperança com o regime. Por ser mais velho que David e Miguel, Diego não é mais idealista nem tem expectativas. O respeito entre David e Diego nasce, a amizade cresce e a sorveteria Copelia é, de novo, palco de um encontro entre os dois. Se para Diego só há esperanças fora de Cuba, para David uma nova vida se abre. 

Morango e Chocolate é um filme emocionante, que deve ser visto e revisto. É uma aula de história cubana e também de cidadania.

Foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. No Festival de Berlim, foi indicado ao Urso de Ouro de Melhor filme e venceu o Prêmio Especial do Juri - Urso de Prata e  o prêmio Teddy, para a Melhor Realização. No Festival e Gramado, recebeu o Kikito de Ouro como melhor filme e também Melhor Ator, dividido entre Jorge Perugorria (Diego) e Vladmir Cruz (David) e Melhor Atriz Coadjuvante para Mirta Ibarra (Nancy). Também venceu na categoria Melhor Filme pela escolha do público.