terça-feira, 13 de setembro de 2011

Os cachorros de Sá Maria Bahia

Laura é dois anos e meio mais velha do que eu. Enquanto eu era um bebê, ela já ia pra escola. E, quando voltava, tinha dever de casa pra fazer, tinha que estudar. Lembro até hoje de ficar sentada embaixo da mesa ouvindo as primeiras lições da Laura e querendo participar daquilo tudo. Eu queria poder ler sozinha aqueles livros, pra não precisar de ninguém pra me contar as histórias.

Só que tinha a Tia Ylza, ou Aya, como eu a chamo. Nessa época, ela e Adê (Tia Leda) moravam aqui em casa e cuidavam muito bem de mim. Era com Adê que eu aprendia as primeiras letras, no Mini-dicionário da Língua Portuguesa, um dos maiores livros que tem aqui em casa. Foi com ela que aprendi a pensar que, se "casa" começava com CA, "caneta" também começava com CA. Já Aya era a responsável por me fazer dormir, me contando histórias e caminhando comigo pela casa, à noite. Coitada, eu dava trabalho e a impedia de ver novelas na TV. Sempre queria mais histórias.

Aprendi a ler e a desvendar os livros, mas as histórias de Aya eram únicas. Ela contava de um jeito muito legal e, volta e meia, lá ia eu dormir na casa dela, esperando pelas novas aventuras ou pelas antigas, de sempre. Eu fazia ela repetir as minhas histórias favoritas praticamente à exaustão. Um dia, ela, já com bastante sono, contava a vida de três irmãos que resolveram buscar a árvore que fazia alguma coisa especial e que não me lembro, o pássaro que fala e a fonte de água prateada que canta. Lá pelas tantas, ela falou que "foram conversar com a mulher de Seu João Roxo". Reagi indignada. Não tinha "Seu João Roxo" ali! Era o sono que a levou a falar sobre um colega de trabalho no meio da narração. Cruel, não deixei ela dormir enquanto não terminasse a história.

E todas elas terminavam da mesma forma: um casamento inevitável entre os protagonistas. E Aya ia a todas as festas, dançava, comia e sempre fazia um pratinho de doces pra trazer pra mim. Só que, enquanto ela voltava pra casa com todos os brigadeiros e olhos de sogra com que ia me presentear, os cachorros de Sá Maria Bahia (pessoa que até hoje não sei quem é) saíam correndo atrás dela. Com medo do ataque dos cachorros, ela acabava deixando com eles os meu doces e, assim, podia chegar inteira em casa. Sem doces, mas sem mordidas de cachorro. E a boba aqui ficava por algum tempo lamentando a ausência dos doces de todas aquelas festas das histórias.