quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O caso da televisão

Desde que eu me lembro, nunca tive uma boa relação com a televisão, aquele aparelhinho falante que só sabe atrapalhar a minha vida. Lembro até hoje da tv que queimou exatamente no dia em que nos mudamos pra BH. Ela ficava na sala da casa da vovó, onde morávamos (e onde eu moro hoje). Meus avós, pra não nos verem sair de casa, inventaram uma viagem. Ficamos nós seis sozinhos aqui e, pouco antes de irmos embora, a tv queimou. Foi quase um presente ao contrário que deixamos pro vovô, pra vovó, pro Paulo e pro Padrinho.

Casa cheia, tv sempre ligada. Silêncio era algo quase impossível. Veio logo uma tv no quarto, um verdadeiro horror. Tudo bem que foi nela que vi Anos Incríveis, o seriado mais bacana de todos os tempos. A paz veio quando nos mudamos de apartamento, mas durou pouco. Logo veio a Laura com outra tv pro quarto e teve início uma briga eterna entre o silêncio que eu queria e a tela piscante com todo aquele barulho. Quando fui morar sozinha, aboli a tv e o sofá.

Só que tem a vovó. Ela ia me visitar e achava um absurdo eu ficar em tv. Me deu uma. Que só ela mesma usava. E ela gosta bem... duas tvs aqui em casa que vivem em função dela. Eu só ligo pra ver futebol, vôlei ou filmes. E aí veio o Leo, que foi criado com tv no quarto. Encheu tanto a paciência que passamos a ter uma só pra nós ele. Pra mim, era mais uma coisa pra pegar poeira. Foi assim, até ontem.

Porque ontem a tv da Tia Ylza, que é tão dependente quanto a vovó, resolveu parar de funcionar. É uma daquelas de tubo ainda. Pesada. Um trambolhão. E a rua dela anda interditada há meses com uma obra interminável. Não tem como buscar a tv lá pra levar pro conserto, a não ser que alguém bem forte carregue aquilo tudo por um caminho cheio de obstáculos. A solução seria comprar outra, mas íamos ter o mesmo problema com a entrega. Uma nova, flat, mais leve, daria menos trabalho no transporte, mas resolveria. E a greve dos correios, como faz?

Fiquei pensando nisso tudo até que olhei praquela tv que está a um tempão lá no meu quarto. Às vezes o Leo vê alguma coisa. Quase nunca. Eu, só pros filmes mesmo, e tem tempo que não ligo. Pra que ficar com aquilo lá? Leo concordou e, hoje cedo, ela foi passear na casa da Tia Ylza. Leo levou, aproveitando que cedo há pouco movimento na rua.

Ela chorou. Agradeceu muito o cuidado que temos com ela. Antes, tinha falado que não precisava de tv, que era bobagem. Depois que levamos a nossa, ainda meio atordoada, ela disse que o dia fica vazio sem a tv ligada. São as novelas, as novenas, as missas e o Sem Censura que ela assiste diariamente. Enquanto faz tricô ou deitada, descansando seus 90 anos.

O que, pra mim, não vale muito, preenche o dia de uma pessoa tão especial.