segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Conto: Fumaça

Ela fumava como se fosse um enorme prazer. Quase a mesma expressão facial que vejo na Alexa quando ela está tomando o primeiro gole de uma cerveja gelada nos dias quentes, úmidos e sem vento do verão. Alexa tinha uma expressão de alívio linda, quase pueril, com os olhos apertados de felicidade. Era sempre assim no primeiro gole.

E agora, aquela senhora rústica, meio bruta, falando alto e contando casos ridículos, tirara do bolso o maço de cigarros e acendera um deles ali, no meio da rodoviária. Ei, não se pode fumar aqui, eu queria dizer. Mas fiquei com medo da reação daquele tamanho todo de mulher. Pensei em fazer cena, tossir, espirrar, fazer cara feia e mostrar meu desconforto. Mas quando, com o cigarro aceso, ela deu o primeiro trago, seus olhos se apertaram como os de Alexa. E, na mesma hora, meus pensamentos tomaram outro rumo.

Alexa, seu sorriso, sua expressão de prazer, as tardes quentes que passamos juntos, o jeito como me deixou, com um longo abraço, um beijo molhado na bochecha e um aceno, já no banco do motorista de seu carro vermelho.

Quase agradeci àquela senhora por ter, com um cigarro aceso e uma simples tragada, reavivar lembranças tão intensas que estavam assim, como brasas abafadas dentro de mim.

Alexa. A fumaça da lembrança invadiu meu peito.