segunda-feira, 15 de agosto de 2011

De memória

Leo é capaz de lembrar de várias coisas pelo cheiro.
Conheço uma garota que, pela voz, lembra de qualquer pessoa.
Laura, minha irmã, sabe de tudo que já passou, até a roupa que ela (e todos) usavam em determinado dia, há sei lá quantos anos.

Tem gente que lembra só das coisas boas.
Há quem só lembre das ruins.

Memória é uma coisa curiosa. Há quem tenha muita, há quem tenha uma bem específica. A minha é da segunda opção.

Muita coisa que acontece comigo, esqueço. Várias coisas da minha infância eu só lembro depois de umas sessões de análise. Preciso de um gatilho mais poderoso para fazer acordar aquelas áreas que ficam esquecidas.

Já esqueci coisas de que não deveria. Meu último sobrenome, por exemplo. Sério, tive que tirar a identidade da carteira pra, finalmente, ler o nome inteiro e lembrar daquele que eu não uso no dia a dia. E houve outra coisa grave, que me deixa com vergonha até hoje. Tanta, mas tanta, que vou me abster de contar, pra não me torturar mais depois (realmente, foi uma coisa horrível).

Já me culpei muito por ter memória ruim. Memória visual ruim é a que mais me causa problemas. Direto alguém fala "oi" comigo na rua e eu simplesmente não sei quem é. Aconteceu semana passada. Acontece praticamente todo dia. Demora um tempão pra eu desconbrir quem é a pessoa. Às vezes, dias; às vezes, meses. Tem ocasiões em que, simplesmente, não sei e pronto. 

Laura às vezes me conta coisas que eu fiz quando a gente era adolescente e que eu não me lembro, nem por decreto. Aí ela me descreve como estava o dia, as pessoas, as roupas, os cabelos. Dá vergonha. Toda a memória da família foi pra ela.

O que me consola é que Sir. Arthur Conan Doyle escreveu Um estudo em vermelho, a primeira aventura de Sherlock Holmes. Ao conhecer Holmes, Dr. Watson cria uma lista de características do detetive, para melhor entender sua personalidade. Ele desconte que Holmes não sabia que a Terra girava ao redor do sol, e isso suscita uma discussão.

Holmes diz que, no senso comum, a memória é como um recipiente elástico, que sempre tem espaço pra mais coisa. Mas que, na verdade, não é assim. Para ele, a memória é como um sótão de uma casa. No início da vida, ele é vazio. Aos poucos, você vai mobiliando seu sótão com coisas leves ou pesadas. Um dia, o sótão lota. E, pra que entre outra memória ali, alguma coisa deve sair.

A minha é assim: um sótão lotado, mas que está sempre disponível pra receber coisas novas. Mesmo que outras precisem sair de lá.

Valeu, Sir. Conan Doyle!