segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Conto: Tarde

Ela disse que ia ligar.

Ela vai ligar. Só que não agora, não é a hora. Ainda é cedo, o sol está lá no alto, avisando que ainda é meio-dia. Ainda há algumas horas pela frente, até que o telefone toque e eu escute sua voz. Ela vai dizer "oi, Calu", como se fosse a coisa mais fácil do mundo. E eu vou voar longe ouvindo meu nome sendo pronunciado por aquela voz rouca, sexy, quente. E ela também dirá que "é a Joana" de um jeito leve, um registro simples, como se não fosse nada.

Mas era tudo. A voz me lembrava até o jeito como ele segurava o cigarro, como se fumar fosse bonito. Com ela ficava bonito. O relógio no braço direito, o cabelo esvoaçante, o anel castanho no dedo médio da mão esquerda. Inteiramente linda, com as botas de cano alto e a saia curta. E um abraço harmônico, com a pele macia.

Enquanto espero o telefone tocar, lembro de cada detalhe de ontem. E cada um deles dura uma eternidade, impede que as horas passem, que a noite chegue e que o telefone toque.

Mas ela vai ligar.

Ela disse que ia ligar.