segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Conto: Choque

Era difícil sair com ela pelas ruas. Atraía todos os olhares possíveis. Pessoas com cara de espanto, de admiração, de reprovação, de nojo. E eu, que ainda não entendia o motivo, ficava enciumado. Pensava que todos os olhares eram de desejo. Eu olhava de volta para aquelas pessoas com raiva, a testa enrugada, querendo deixar claro meu descontentamento.

Aos poucos, conseguia identificar uma revolta aqui, uma aprovação ali, uma repulsa do outro lado. E comecei a me intrigar. O que ela tinha para atrair tantos olhares, com tão variadas reações? Para mim, era apenas uma moça relativamente bonita. Havia mil outras lindas por perto - ela não era linda. Tinha olhos expressivos, um sorriso muito alegre, mas era só. Nada de admirável. De corpo também não era nada demais. Não era um corpo de modelo, nem de obesa. Era uma mulher normal, com uma gordurinha aqui, outra ali.

O que me atraía nela não podia ser visto, só sentido. Era uma pessoa aparentemente frágil, mas que tinha uma enorme força interior. Uma pessoa que carregava em si uma doçura enorme, um colo carinhoso e, ao mesmo tempo, um furacão de dor, de amor e de desejo. Isso era invisível. Só conversando, conhecendo, convivendo era possível saber.

Por isso me intrigavam aqueles olhares todos.

Até que um dia eu escutei um comentário. O mesmo que já havia escutado antes sobre outra pessoa, em outra situação. O comentário preconceituoso de sempre: "uma menina tão simpática! Por que se estraga com tantas tatuagens?". E foi aí que eu entendi.