segunda-feira, 25 de julho de 2011

Conto: Ruído

Eram quatro à mesa: Rafael, Eduardo, João e Felipe. A televisão estava ligada. Passava um filme do Tarantino.

João escutava trechos.

Cale - jogo - fomos - ela - copo - arma - amendoim - claro - fogo - beijo - nada - custo - pouco...

Tentava criar uma história com tudo aquilo que chegava aos seus ouvidos. Via os amigos abrindo a boca - para comer, para falar, para beber. Comentavam o filme. Falavam da vida. Riam. E João ali, criando uma nova história.

Para ele, nada daquilo fazia sentido. O barulho era grande, os amigos falavam alto, o som da televisão incomodava. Se soubesse ler lábios, conseguiria entender alguma coisa. Mas não conseguia acompanhar. Não, ele não tinha bebido. Só um copinho de guaraná zero. Como era difícil entender aquilo tudo...

De repente, João se sentiu sozinho. Não era por maldade, mas os amigos acabavam por isolá-lo no canto da mesa. Não faziam perguntas, não pediam sua opinião, não falavam devagar. Era como se ele não existisse para os amigos naquele momento. Seriam, então, amigos mesmo? Mesmo com essas falhas, ele estava ali, tinha a companhia deles. Melhor assim.

Melhor imaginar que tinha toda a capacidade do mundo para entender tudo o que diziam. Na sua nova história, João era um garoto esperto. Não havia dificuldades. Havia muitos amigos, muitos encontros, muitos filmes e ele entendia tudo.

Sorriu. Era feliz. A seu modo.