segunda-feira, 4 de julho de 2011

Conto: Novo dia

Não, eu não quero acordar. Se eu abrir meus olhos, vou encontrar o vazio e isso eu não quero ver. Prefiro não olhar, manter os olhos bem fechados, dormir de novo e acordar amanhã como se este tempo tivesse sido um pesadelo.

Não, eu não vou abrir meus olhos. Vou deixar cada lágrima sair assim, pelas frestas, tão pequenas que não deixam a luz entrar. Que as lágrimas que ficarem presas entre os cílios se solidifiquem como cimento, impedindo que a luz do dia encontre as minhas pupilas.

Não, eu não vou brigar. Só não quero abrir meus olhos e ver o vazio que Vera deixou em minha cama, em minha casa, em minha vida. Não quero encarar o primeiro dia de vazio, de silêncio, de ausência.

Não, eu não quero aceitar. Não aceito que a porta da frente bateu e Vera passou por ela, levando roupas, objetos, o cachorro. Não aceito que meus pedidos de perdão não encontraram eco em seus ouvidos. Não aceito que um novo dia nasceu e ela não está aqui, comigo.

Não, eu não quero acordar. Se eu abrir meus olhos, vou encontrar o vazio e isso eu não quero ver.