segunda-feira, 11 de julho de 2011

Conto: Escuridão

Tenho medo. Do escuro, da dor, da solidão. De acordar de manhã e não encontrar o mundo em que eu vivo. O café da minha mãe, com aquele cheiro gostoso saindo da cozinha. O jornal, que meu pai buscou na portaria do edifício. Minha irmã mais nova arrumando as roupas no armário.

Tenho medo de sair de casa e encontrar a rua suja. De ver aqueles moleques de sempre na esquina, pedindo dinheiro. De encontrar com o Marcelo em nossa rua. Ele me perguntaria sobre a vida e eu não teria coragem de dizer que tenho medo. Ele me perguntaria sobre a Diana e eu seria obrigado a dizer que meu medo de viver com ela fez com que o relacionamento acabasse. Ele me perguntaria de onde vem esse medo e eu não quero responder. Prefiro ficar quieto aqui em casa, corro menos riscos.

Fico feliz que não tenho muitos amigos no trabalho. Nem na vida. Aí, não me crivam de perguntas. Não questionam sobre a minha família, a minha vida, os meus amores. Não preciso contar que, enquanto a Diana resolve a vida dela, arrumando uma pessoa mais corajosa, eu fico aqui, no quarto, sentindo o cheiro do café da mamãe e revivendo todos os meus fantasmas, pensando no risco que eu corro assim que me afasto deles, da minha família.

Amigos, laços de amizade mesmo, não tenho nenhum. Tenho só mesmo o Marcelo, que é um colega de bairro, que se preocupa comigo e vem aqui nos visitar. Às vezes, invejei a Diana, com tanta gente ao seu redor. A casa dela vivia lotada de gente, mas isso me assustava. Tinha medo de que eles me conhecessem, que me entendessem e se afastassem de mim. Prefiro me afastar por conta própria. Entrar no meu casulo, na minha concha, na minha casca. E ficar ali quieto, longe do mundo, no escuro do aconhego, ouvindo papai passar as páginas do jornal e mamãe ali, na cozinha, fazendo o cheiro do café se multiplicar, me envolver, me embalar e me fazer esquecer. O mundo é muito perigoso. E eu tenho medo.