quarta-feira, 29 de junho de 2011

Filme: Lixo extraordinário

Waste Land - 2010 (mais informações aqui)
Direção: Lucy Walker, Karen Harley, João Jardim
Elenco: Vik Muniz

Um documentário feito a três mãos, com o objetivo de retratar o processo criativo do artista plástico brasileiro Vik Muniz. Acontece que os personagens que foram surgindo ao londo do trabalho se tornaram maior que o artista.

Tudo começa em Nova York, no ateliê do artista, com as negociações para seu novo trabalho. Ele quer usar o lixo, viver por dois anos em contato com catadores. Na pesquisa, aparece o Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, o maior lixão do mundo. Vik e sua equipe vão até lá e encontram tipos humanos adequados à obra que pretendiam produzir.

E aí está o melhor do filme: a história de vida, de luta, de dignidade das pessoas que precisam sobreviver coletanto materiais recicláveis de um aterro sanitário. Tião, Suelen, Ísis, Irmã e outros oferecem, além do corpo, como modelos, suas histórias de vida. Vik contrata alguns dos catadores para trabalhar em seu projeto. Primeiro, fotografa parte deles durante o trabalho de coleta. Os outros serão fotografados no estúdio. Com materiais retirados da coleta, os catadores montam as imagens das fotos tiradas e selecionadas por Vik.

A obra mais importante é o Marat Sebastião, em que Tião é fotografado em uma banheira, com o lixão ao fundo. Após pronta (a obra é coletiva, os catadores contratados foram os responsáveis pela montagem, com a supervisão de Vik), a foto da montagem é levada a leilão em Londres e vendida por um valor substancial, entregue à Associação de Catadores do Aterro Municipal de Jardim Gramacho.


Uma discussão interessante levantada entre Vik, sua esposa e uma pessoa da equipe é se Tião deve ir a Londres. Durante o debate, são levantadas impressões sobre como o processo criativo estava "ajudando" a vida dos catadores. E que qualquer ajuda maior seria dar a eles uma espécie de ilusão. A discussão é curta, Vik aparece usando a capa do super-herói que vai salvar seus novos amigos. O resultado veio num programa Caldeirão do Hulk. A Isis, uma das personagens, contou que recebeu dez mil reais de Vik, pelo trabalho. Como nunca tinha visto tanto dinheiro, ela ficou deslumbrada, correu para um shopping e gastou todo o dinheiro em roupas. Ela não estava preparada para a forma com que foi ajudada.

O pecado do filme é ao final, quando mostram, em letreiros, o que aconteceu com os personagens principais. É quase como dizer aos espectadores que aquilo tudo ali foi só baseado em uma história real - como acontece em filmes com um pé na realidade, em que sempre temos, ao final, o que aconteceu com os personagens principais. Isso aproxima o documentário das ficções e tira um pouco a realidade, tão brutal, da vida dos catadores.

O filme concorreu ao Oscar de melhor documentário na edição de 2011.