quarta-feira, 8 de junho de 2011

É pior?

Dia desses eu vi Janela da Alma, um documentário muito bacana sobre a visão. Na discussão que se seguiu, houve uma pessoa, não me lembro mais quem, que comentou sobre como deve ser difícil não ver. Eu não entrei nesse debate. Mas fiquei pensando cá comigo sobre algumas questões.

Em 1994, eu estava às voltas com uma disfunção hormonal bem séria. Falei um pouco sobre isso aqui. Foram cinco dias de hemorragia fortíssima e muitos desmaios. Em dois deles eu estava sozinha e não perdi a consciência, mas não tinha força pra gritar, nem pra derrubar alguma coisa, pra alguém me socorrer. E, o principal, não enxergava nada. Não sei quantos minutos duraram essas falhas de visão. Pra mim, pareceram uma eternidade. Foi tão forte que eu decidi que não havia nada pior na vida do que perder a visão.

Mas o tempo passa, a gente vai crescendo... Em 2001 fui trabalhar na Secretaria Municipal de Direitos de Cidadania de Belo Horizonte. Era uma secretaria nova, com a proposta de reunir uma série de serviços para grupos específicos. Havia coordenadorias e conselhos para a comunidade negra, portadores de deficiência, direitos humanos, direitos do consumidor, juventude e GLBTTT. Lá eu tive oportunidade de conhecer um mundo bem diferente do meu e isso me humanizou bastante. Foi duro, mas foi muito proveitoso.

Um dos trabalhos mais bacanas que fiz lá foi uma cartilha para apresentar, sem mitos, a vida de pessoas com deficiência. Entrevistei e fotografei, junto com uma outra jornalista, pessoas com várias idades e vários tipos de deficiência. Duas coisas me emocionaram bastante.

A primeira foi um garoto chamado Bruno, que nasceu com deficiência no desenvolvimento cerebral. Ele não andava, não falava, tinha uma movimentação do corpo muito restrita. Porém, isso não o impediu de estudar. Numa escola especial, ele foi alfabetizado e aprendeu a usar um computador. E, com ele, escrevia textos sobre política (na época, havia a polêmica da quebra do sigilo do painel de votação do Senado). Para isso, ele usava o único movimento que ele podia controlar, que era o do pescoço. A entrevista teve de ser montada de forma que as respostas fossem "sim" e "não". Quando era "não", ele olhava para o lado esquerdo; o "sim" bastava olhar para cima.

A segunda foi a entrevista com um grupo de surdos. Até então, eu ainda achava que a cegueira era a pior das deficiências. Os surdos estavam ali, numa sala, ao lado da intérprete, respondendo a todas as minhas questões. Mas eu não conseguia conversar com eles, diretamente. Principalmente porque não fui alfabetizada em Libras (Linguagem Brasileira de Sinais). E foi ali, com eles, que entendi que pior do que não ver é não poder se comunicar. Os cegos, os deficientes físicos, até mesmo o Bruno, com a paralisia cerebral, conseguiam se comunicar com qualquer pessoa. Os surdos, não. Eles precisam que o interlocutor tenha disponibilidade para conhecer/entender a linguagem, paciência para decifrarem juntos as palavras e até mesmo compaixão para não os abandonarem falando sozinhos.

Os surdos falam. Mas na maior parte do tempo não conseguem fazer com que os ouvintes se comuniquem com eles. Volta e meia aparece alguém para ajudar os cegos a se movimentar numa cidade ou em qualquer local. Idem para pessoas com outros tipos de deficiência. Os surdos acabam se fechando em um mundo à parte. E deixá-los lá é bem cruel. Assim como é cruel excluir as pessoas com deficiência mental.

É muito difícil  lidar com o diferente. Pior é fingir que a diferença não existe, isolar o diferente e fingir que o mundo é todo cor-de-rosa.