segunda-feira, 20 de junho de 2011

Conto: Fome

Eu gosto de fechar os olhos. São poucos segundos em que me dou o direito de sonhar, de imaginar uma história. Mas em alguns momentos os devaneios tomam conta de mim e as histórias que crio se misturam com a realidade.

Um dos meus meios principais de imaginar histórias para pessoas que passam é ver qual é o livro que elas leem, quando têm obras nas mãos. Estava em uma das esquinas mais famosas de Belo Horizonte, Álvares Cabral com Bahia, onde há aquela citação tão belo-horizontina: a vida é essa: subir Bahia, descer Floresta. Um dos meus amigos chamou a minha atenção:

- Olha lá, Júlio, o que aquele moço está fazendo com o livro!

Desviei meus olhos para a pracinha, já querendo ver qual era o livro. Imaginava algo da saga Crepúsculo ou A Cabana. E só vi um sujeito sentado, com uma garrafa de uísque ao lado, folheando um livro cheio de fotografias. Fechei meus olhos e imaginei uma pessoa planejando uma viagem. Para onde ele iria? O que aquelas fotos diriam a ele sobre o seu lugar de destino? Ele iria sozinho? Teria família?

Abri meus olhos para captar mais algum momento daquela pessoa. Foi quando eu vi o que o meu amigo queria que eu visse: o rapaz arrancou uma das folhas do livro, embolou-a, colocou na boca e mastigou.

Há fomes maiores que a de conhecimento.

Após ver a fome assim, face a face, deixando o ser humano tão vulnerável, não havia mais histórias para meus olhos fechados.