segunda-feira, 13 de junho de 2011

Conto: Estranhos Fóbicos Anônimos

- Sabe o que eu achei no Google? Estava procurando aquela empresa de games EAF, e achei uma página dos Estranhos Fóbicos Anônimos. Capotei de rir com isso.

- Como é que é?

- Estranhos Fóbicos Anônimos. Um desses grupos de ajuda com todo tipo de fobia maluca que você pode pensar. Tem um até aqui na cidade. Fiquei imaginando que tipo de louco que vai lá.

- É...

Estranhos Fóbicos Anônimos... o que seria isso? Encucado, foi atrás do Google e descobriu a página, o local e do horário das reuniões na cidade. E correu pra lá no próximo encontro.

A filosofia "Só por hoje" estava lá. E as pessoas, meio ressabiadas, quase que pedindo desculpas por estar ali. Um se aproximou e perguntou se era a primeira vez dele ali. Sim, respondeu. Não se incomode, disse o outro, não faremos perguntas, você fala somente se quiser, seja bem-vindo.

Começou a reunião. A primeira pessoa a falar era uma jovem, cerca de 25 anos.

- Pessoal, preciso compartilhar minha vitória da semana. Durante o almoço de terça-feira, um baguinho de arroz veio parar no meu prato. Eu consegui me superar. Só dei um ligeiro grito de pânico, tirei o arroz com a ponta da faca e coloquei no prato do meu namorado. Fiquei parada, pensando no que fazer depois. Pela primeira vez na vida, superei meu medo de arroz e não troquei de prato. Tampei o nariz e continuei comendo. O arroz não contaminou a comida. Obrigada!

Uma salva de palmas ecoou no salão. O segundo resolveu falar. Era um senhor, com quase 60 anos.

- Eu vim falar de um fracasso. Esta semana eu tentei pisar no tapete da entrada de casa. Só que, lá na entrada do apartamento, eu já suava frio. Não conseguia parar de pensar que, se eu colocasse um pé no tapete, seria tragado por ele. O medo foi me dominando. Eu consegui chegar até bem perto, mas como é normal, pulei o tapete e entrei em casa. Me escondi no banheiro pra chorar sem que a minha mulher e meus filhos vissem. Sou um fracassado. Onde já se viu ter medo de tapete da porta de casa?

Ele sentou-se com lágrimas nos olhos. Os companheiros ao lado foram consolá-lo.

Lá tinha fóbicos das coisas mais estranhas. Uma tinha medo de tocar em algodão. Outro, em maisena. Outro, ainda, tinha medo de peixes de aquário. E aquela mocinha que tinha medo de coisas amarelas? Parecia o Roberto Carlos com o pavor de marrom. Gente, ele pensou, que povo louco! Como podem ter medo dessas coisas, arroz, tapete, algodão, maisena, peixe de aquário, amarelo!

- Temos novos companheiros hoje, que só falarão se sentirem vontade, começou o coordenador do grupo.

Ele levantou a mão. Sim, tinha algo a dizer.

- Oi. Também tenho uma fobia, mas convivo com ela há tanto tempo que nem sei se ela é estranha. Começou quando eu ia pro sítio do meu primo todo final de semana e o José, o pato de lá, ficava me encarando. Eu era criança e achava que ele ia avançar em mim, me arrastar pro laguinho e me matar. Desde então eu tenho Anatidaefobia, esse medo estranho de ser observado por patos. Vivo andando pelas ruas, procurando patos por todas as esquinas, em todos os becos, em todas as janelas. Acho que vocês são todos loucos com essas fobias estranhas. Mas não fujo disso. Queria me libertar do pato que me persegue, indefinidamente, por todos os dias da minha vida.

Estranhos Fóbicos Anônimos... ele encontrou seu lar.