segunda-feira, 27 de junho de 2011

Conto: Chuva

Era uma vez um garoto chamado Joly. Ele tinha pais muito ambiciosos, que queriam que o filho fosse alguém na vida. Joly cresceu ouvindo que ele era especial e levou a sério a sua vocação para a grandeza. A primeira palavra que ele falou foi “eu”. A segunda foi “meu”. Era o orgulho dos pais.

Joly precisou trabalhar. Sujeitou-se a um emprego mediano para consolidar seu projeto de sucesso futuro. Juntou o que sobrava dos salários para comprar um bom par de sapatos. Sua glória começava ali, com aquele par de sapatos.

Os sapatos eram especiais. Eram dele. Ninguém os podia tocar. Os pais admiravam de longe. Ao calçar os sapatos, Joly se imaginava superior, supremo. Antes de caminhar com seus sapatos novos pela casa, limpava bastante o caminho que iria percorrer. Nada, absolutamente, poderia macular seus pés calçados.

Chegou o dia em que a necessidade o levou a sair de casa com os sapatos novos. Joly caminhava pelas ruas olhando com cuidado onde pisava, já antevendo como limparia o solado de toda aquela sujeira da rua. No meio do caminho, uma grande chuva caiu na cidade. Tão grande que logo grandes poças se formaram nas ruas. Joly se desesperou. A natureza estava contra o seu projeto. Os seus planos não previam a chuva. Não era assim que tinha de ser.

Joly ficou contra o mundo. Enquanto gritava com todos que passavam correndo e deixavam respingar a água barrenta em seus sapatos, pensava no que poderia fazer para salvar seu futuro.

Foi debaixo de uma tempestade, com os pés molhados e os sapatos em frangalhos que Joly entendeu. Seus sapatos não o fariam ser alguém. Nem um belo terno, um cartão de crédito, um carro ou um avião. Enquanto brigava com o mundo, Joly percebeu que seus gritos afastavam as pessoas que poderiam tê-lo ajudado. Por pensar só em si mesmo, Joly se afastou do mundo e acabou sozinho.