quinta-feira, 23 de junho de 2011

Anti-social

A Laura, minha irmã, nasceu linda, loura e falante. Dois anos depois, lá vim eu, feia, cabelo escuro e tímida. Anti-social, talvez seja a palavra certa. Quando saíamos, nós duas, todo mundo falava com ela e eu ficava lá, de lado, olhando. O tempo passou, não sou mais tão tímida quanto era, mas continuo anti-social. Só que com mais apoio.

Tenho um pouco de pavor de pessoas do além que vêm puxar papo na rua, na fila, na sala de espera. Acho que tenho uma cara muito confiável porque, em geral, as pessoas que vêm puxar papo comigo sempre me contam alguma coisa que, tenho certeza, não me contaria, se me conhecessem. Coisas bizarras mesmo. Daquelas que me dão vergonha ouvir. Não importa se são jovens ou idosos, sempre vem uma história sem noção. Daí que morro de medo quando alguém que não conheço vem puxar papo.

A minha salvação veio com os antigos walkmen. Ganhei um discman e abusava dele, apesar do gasto enorme de pilhas. Na época da faculdade, troquei o dito por um walkman mesmo, com rádio, pra ir pra PUC escutando o Fundo do Baú (só música velha...), das 6h às 7h. Era ótimo! Encarava o tempo dentro do ônibus sem o risco de alguém vir puxar papo. Fones de ouvido fazem milagres... Daí pro mp3, pro Ipod... Já usei os fones até com o Ipod sem bateria, pra desencorajar os incautos puxadores de papo. E funciona!

No meio disso tudo, apareceu a internet, e só reforçou que eu me dou melhor escrevendo que conversando. Nunca gostei de telefone, por exemplo. Tinha uma colega de escola, a Érika, que me ligava todos os dias (to-dos!), pra conversar bobagem, e lá se ia uma hora de papo no telefone. Eu curtia porque ela era divertida e tal, mas só isso. Outra pessoa ao telefone já me deixava louca pra desligar e voltar pra vida normal. Não podiam esperar pra falar no dia seguinte, pessoalmente? Até hoje, prefiro receber um e-mail a um telefonema.

Daí que outro dia estava pensando em como estamos, todos, ficando mais anti-sociais. Com o celular, com os notebooks, com o 3g, tudo é motivo pra conectar com o mundo virtual e curtir os 1488 amigos on-line, enquanto estamos num bar, com outras sete pessoas, dividindo uma mesa, e sem trocar uma palavra. Outro dia, lá estava eu, na casa dos pais do Leo, com todo mundo à mesa, conversando. Primeiro, zerei o meu Reader; depois fiquei jogando Tetris, tudo no celular. E perdi uma boa parte da conversa, que é sempre muito agradável. Mesmo que eu não participe muito (a timidez ainda mora em mim), gosto de ouvir.

Vá lá, eu gosto de conversar. Gosto muito. Com pessoas que eu conheça e que saibam conversar sobre tudo. Quem só abre a boca se puder pronunciar "eu" e "meu" não é o tipo de pessoa que me convide para um papo. Tá, eu te conheço, mas te acho chato, ok? Nesse caso, prefiro os fones, o notebook ou o celular.