segunda-feira, 16 de maio de 2011

Rubra

Tinha 12 anos quando menstruei pela primeira vez. Eu quis chorar por horas e horas e horas. De medo, de dor, de vergonha. Enquanto isso, minha mãe saltitante tratava de espalhar pra todo mundo. Quando eu soube disso, quis chorar mais e mais.
* Nota mental: jamais expor a intimidade de uma pessoa sem a autorização dela. Vale pra todo mundo.

Eita trem chato, sô! E triste, incômodo, desconfortável. Terrível. Tinha tanta coisa boa na vida... correr, andar de bicileta, jogar futebol, tudo com os meninos do prédio e, de repente, eu já não "podia" me portar mais como um moleque, nas palavras dos meus pais.


Daí que três anos depois eu tive um problema hormonal grave. Grosseiramente, parei de produzir - ou diminui muito, não tenho certeza - o hormônio que faz parar de menstruar. Foi uma hemorragia severa, tão forte que eu desmaiava só de levantar a cabeça do travesseiro, fui parar no hospital e entrei no primeiro estágio do coma (aquele mais levinho), tomei algumas bolsas de sangue, tive de fazer uma curetagem sem anestesia. Foi uma coisa muito louca, que só me fez ficar com mais medo de menstruar.

A minha ginecologista da época entendeu meu medo (eu ligava pra ela desesperada a cada mês) e tentou me fazer ver com olhos melhores esse tormento, me entregando um poema até bonitinho da Marina Colasanti.

Eu sou uma mulher (tirei daqui, o papel que ela me deu eu joguei fora há anos)

Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.


Os homens vertem sangue
por doença
sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.


Em nós
o sangue aflora
como fonte
no côncavo do corpo
olho-d'água escarlate
encharcado cetim
que escorre
em fio.


Nosso sangue se dá
de mão beijada
se entrega ao tempo
como chuva ou vento.


O sangue masculino
tinge as armas e
o mar
empapa o chão
dos campos de batalha
respinga nas bandeiras
mancha a história.


O nosso vai colhido
em brancos panos
escorre sobre as coxas
benze o leito
manso sangrar sem grito
que anuncia
a ciranda da fêmea.


Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.


Pois há um sangue
que corre para a Morte.
E o nosso
que se entrega para a Lua.

É bonitinho, né? Mas não me consolou em nada...

De lá pra cá, tomo reguladores de hormônio. Ou melhor, tomava. Parei há um ano. Enquanto estava sob o efeito deles, era lindo. Menstruar só por quatro dias no mês, sem cólicas, sem fluxo enorme, sem medo. Mas tinha o lado ruim, principalmente o ganho de peso excessivo, a retenção de líquidos. Quando parei, descobri que um tanto das minhas dores de cabeça desapareceram e diminuiu muito o meu inchaço. Mas veio, de presente, o lado ruim: sangrar por 15 dias seguidos. É pra continuar odiando essa "coisa", né?

Tudo isso pra dizer que, pela primeira vez na vida, estou tentada a gostar de algo relacionado à menstruação. Vi em alguns grupos que sigo e também no blog da Lola os coletores menstruais. Depois de pesquisar um tantão, acabei achando a MissCup e fiz a compra. A encomenda chegou.






Por que eu "apelei" pra um coletor?

Primeiro porque qualquer coisa que alivie o transtorno que é usar absorventes, internos ou externos, já capta a minha atenção. Depois, porque é inevitável que o sangue menstrual, em contato com o ar, não produz um cheiro muito agradável. Sem contar que qualquer tipo de absorvente faz um mal danado pro meio ambiente (falou a eco-chata) e ainda tem a síndrome do choque tóxico no caso dos absorventes internos.

O coletor menstrual é de silicone, em tese não causa alergia, nem o choque tóxico. Não polui, dura cerca de 10 anos e ainda ajuda a economizar um troco (só fazer as contas de quanto a gente já gastou com absorvente nessa vida).

Tô super empolgada pra experimentar. E, depois, volto pra contar tudo.