terça-feira, 17 de maio de 2011

De novo, os medos

Daí que no último sábado eu fui lá enfrentar um grande medo.

Eu não consigo dirigir.

Tirei carteira em 2004 e foi super fácil, no segundo exame. Foi tão fácil que a primeira baliza que errei na vida foi justamente no exame em que fui aprovada. Tudo lindo, menos na hora de finalmente pegar o carro sozinha.

Algumas causas:
- Minha mãe dirigiu um tempão sem carteira em BH, quando eu tinha de sete pra oito anos. Praticamente todas as vezes em que estávamos sozinhas, alguém avisava que ali na frente tinha uma blitz. Como repetiram pra mim a vida inteira que polícia levava as pessoas pra cadeia, eu já imaginava a minha mãe indo presa e nunca mais voltando. Ela sempre conseguiu escapar das blitzem, mas o estrago já estava feito.
- Paralelamente, quase toda vez em que ela bateu o carro, estávamos só eu e ela lá. Como controle emocional não é  característica da família, ela começava a chorar e eu me desesperava.
- Quando eu tinha sete anos, estávamos no carro com meu avô dirigindo. Ele errou ao atravessar uma rua preferencial e um carro bateu na lateral, exatamente onde eu estava. O vidro quebrou e voou no meu rosto. Ninguém se machucou. Só eu que ainda lembro da chuva de cacos.
- Cansei de ver pessoas dirigindo irresponsavelmente. Em certas vezes, eu estava no carro e só queria abrir a porta e pular, igual o MacGiver, de tanto medo de morrer. Uma dessas vezes, o motorista simplesmente colocou o pé esquerdo pra fora, pela janela, e estava tentando me provar que não precisava dele pra dirigir.
- Diz aquela máxima que, para conhecer alguém, basta dar poder à pessoa. O carro é uma forma de poder e, na minha opinião, uma das mais cruéis. As pessoas crescem quando estão no carro e eu tenho horror de quem se acha só porque tem as chaves nas mãos.

Bom, essas são, em tese, as questões mais "práticas", digamos. Há outras, bem pessoais. Que podem ser explicadas pelo meu horror de falhar. Quem dirige, erra. E erra na frente de todo mundo. E passa a ser execrado. Quem quer passar por isso? Aí, só de me imaginar no carro, com o volante nas mãos, já vinha a tremedeira. Sem nem entrar no carro, sabe? Passei sete anos sem dirigir.

Com a última queda da vovó, resolvi tomar vergonha na cara e enfrentar esse medo.Mas enfrentar com ajuda. Em BH há duas clínicas-escolas especializadas em medo de dirigir, a Cecília Bellina e a Dirigindo Bem. A Cecília Bellina é mais focada em terapia (individual, em grupo e no carro) e a Dirigindo Bem em práticas, mas com acompanhamento psicológico a cada quatro aulas no carro.

Escolhi a Dirigindo Bem (franquia do Sion). Primeiro porque o pessoal da Cecília Bellina nunca respondeu às minhas perguntas por e-mail e também não consegui falar por telefone. Já a Dirigindo Bem me passou todas as informações na hora em que liguei. E sábado passado eu fui lá para a aula de teste. É nesse momento que o gestor (a pessoa que acompanha o aluno nas aulas práticas) avalia o nível de técnica e de reações nervosas. Meu gestor é o Reginaldo. Ele me levou ao bairro Santa Lúcia, que é bem tranquilinho, e lá passou o carro pra mim. Foi traumático.

Mas foi bom, também. Depois de sete anos, achei que nem saberia ligar o carro. Mas liguei, rodei um pouquinho, usei até a terceira marcha e fiz uma ré na subida, mais desajeitada do que tudo. Teve um momento lá que eu não consegui segurar e chorei um pouco. Mas como a proposta era enfrentar o medo e conseguir dirigir, forcei o que pude e, pelo menos, consegui ver que não tô tão ruim quanto achava. O diagnóstico do Reginaldo é que com 36 aulas (divididas entre níveis básico, intermediário, avançado e independência) eu vou sair de lá feliz e contente, pronta pra dar um uso diferente pra minha carteira motorista.

O segundo motivo pela escolha da Dirigindo Bem foi o tipo de acompanhamento psicológico que eles oferecem lá. Na concorrente, a questão é encarada mais pelo lado comportamental e na Dirigindo, o enfoque é mais psicanalítico. Como eu sou fã de psicanálise, desde meus tempos de assessoria de comunicação do Conselho Regional de Psicologia, confio muito mais nela do que na comportamental. Eu sei que se eu treinar até a exaustão, eu consigo fazer qualquer coisa. Mas não é falta de treino, o problema mora bem dentro de mim, na gavetinha dos medos, e nada melhor que a psicanálise pra encarar essas coisas. Obviamente, tem a influência da Flávia, minha analista, que usa essa abordagem com muita competência (sou fã <3). O psicólogo é o Rafael, conversamos um tanto e foi muito bacana. Segundo ele, meu mantra de agora tem de ser: "Ei, medo! / Eu não te escuto mais / Você não me leva a nada..."

Vou fazer as aulas aos sábados. E, aos poucos, vou contando aqui o que vai dar a minha briga com esse monstrinho.Vai demorar, mas uma hora eu vou ter que dizer que eu não conseguia dirigir.

Pra quem quiser ver como o trânsito deixa as pessoas loucas, tem um post muito legal do Alex com um desenho do Pateta, antigo e muito atual.