segunda-feira, 30 de maio de 2011

Conto: Solene

O burburinho era grande. Fazia meia hora que o esquife tinha chegado ao velório e todos estavam ressabiados e, ao mesmo tempo, em grande expectativa. Ninguém sabia ao certo há quantos anos aquele dia era esperado pelo Germano. O que todos tinham certeza é que alguma coisa iria acontecer.

O Orlando era um cara dado a grandes explosões. Brigava fácil, perdia a cabeça, dizia coisas horríveis. E nunca pedia desculpas. Ele achava que estava sempre certo. Aliás, tinha certeza disso. Com esse temperamento, foi colecionando inimigos. Era extensa a lista de pessoas que não gostavam dela. Dentre elas, as que não queria nem conviver com a figura. Germano era um deles. Há mais de trinta anos não conversavam. Não frequentavam os mesmos lugares. Suas famílias não conviviam, exceto os filhos que eram colegam no judô e viviam caçando briga.

Daí o alvoroço de todos quando surgiu o boato de que o Germano viria ao velório e ao enterro. Quem começou com isso foi o Pereira, que era companheiro de truco do Orlando e cuja esposa era a melhor amiga da mulher do Germano. Por força dos laços, convivia com os dois, mas evitava falar de um com o outro. Sim, o Pereira tinha certeza de que o Germano estava vindo.

Mas o que queria ele - perguntavam-se todos - ali, naquela hora tão triste para a família? Viria dar consolo, diziam uns. Viria pedir desculpas à viúva por todos aqueles anos de animosidade, diziam outros. Era caso de dor na consciência, sentenciavam outros. Quem poderia saber ao certo era o Pereira, que convivia com os dois. Só que ele também não sabia.

E enquanto aguardavam um desfecho para aquele alvoroço, os presentes se dividiam entre contar as últimas novidades dos amigos e da família, tomar um cafezinho, abraçar a viúva e os filhos do Orlando e falar sobre a morte. Foi durante um assalto a um banco. Ele estava ali, na rua. E, no meio da confusão, uma bala perdida encontrou o lado esquerdo do peito do Orlando. Não houve tempo de fazer nada.

Faltando meia hora para o enterro sair, eis que surge o Germano. Todo mundo parou para ver a sua entrada no velório. Ele não falou com ninguém. Caminhou até o caixão, fez um leve cumprimento com a cabeça para a viúva e olhou para o inimigo de tantos anos. Fez um "sim" veemente com a cabeça e se afastou. Enquanto o padre encomendava o corpo e todos rezavam, ele continuou ali, de lado, sem pronunciar uma palavra. E foi ali mesmo que ficou enquanto os filhos e os amigos mais chegados carregavam o caixão para o carrinho do cemitério.

Nessa hora, Pereira se aproximou. Louvou o gesto do amigo em vir ao velório do desafeto. Germano, incomodado, virou-se para o companheiro e vaticinou:

- Vim só para ter certeza de que ele está morto mesmo. Porque a única lembrança que eu queria dele era assim, na horizontal, com um paletó de madeira.

E saiu, com um ar de vitória vencida.