segunda-feira, 23 de maio de 2011

Conto: Dedos

No ultrassom ele já mostrou a que veio: era nítida a sua mãozinha, tão pequenininha, sumindo dentro da boca. Nasceu chorando, não pelo choque da respiração, mas pela ausência do dedo na boca. Nunca fez uso de um bico, nem precisava. Chupar dedo é que era a diversão.

Com medo de terem um filho dentuço, os pais começaram a reprimir o dedo na boca. Melhorou, com o tempo. Mas ele ficou ansioso. Quando viu que os dentinhos conseguiam cortar as pontas das unhas, ficou maravilhado. Era tudo o que ele queria: algo só dele, que desse toda aquela sensação gostosa do dedo na boca que ele não tinha mais.

Só que os pais perceberam que não tinha unha que sobrasse naqueles dedos. E começaram a passar pimenta nas mãos do filho. O garoto viciou em pimenta. Parecia um pequeno indiano, a temperar tudo o que comia com a pimenta que ficava ali, na ponta dos dedos. Pelo menos parou de roer as unhas, pensava o pai.

Já não tinha mais que passar pimenta nos dedos. Mas ainda era com eles que se livrara daquela sensação incômoda de não pertencimento: estalava as juntas das mãos. Ploct, ploct, ploct. Quando recebia olhares atravessados, tamborilava as mesmas pontas dos dedos em mesas, tampos de cadeiras, paredes e portas.

Foi parar no analisa. Qual era o problema? Por que essa necessidade de aparecer com as mãos, com os dedos? Não sabia. Mas ensinou o analista a roer unha, temperar comida com pimenta, estalar os dedos e tamborilar como só ele sabia fazer.