segunda-feira, 16 de maio de 2011

Conto: Chronos

"Quem não faz, de vez em quando, um caminho diferente para voltar para casa ou não fica alguns dias sem relógio, não desenvolve a capacidade de ver as coisas de outra maneira". Era uma espécie de profecia, ou maldição o que a professora, se é que podemos chamá-la assim, falou durante a aula. Frasesinha um pouco sem contexto para a ocasião, mas que caiu como uma bomba em cima do garoto de óculos de aro preto e olhar assustado.

Naquele dia, ao voltar para casa, sentou-se do outro lado do ônibus e tentou ver o mundo de outra maneira, olhar para outro horizonte da cidade. E, como Deus ao criar o mundo, achou que estava bom.

Mas não estava. No sábado seguinte, decidiu se livrar do relógio. O braço direito - ele era do contra - ficou muito mais leve, como se estivesse faltando um pedaço. Se havia alguma dúvida de que era maníaco por relógios, ela acabaria ali, naquele momento. Conseguiu improváveis dez minutos sem ele. Aliás, supostos dez minutos, porque estava sem poder contar o tempo.

Foi aí que notou  que era compulsivo por relógios. Contando os de punho, de mesa e rádios-relógios, tinha 13, todos funcionando muito bem. Até um que foi promoção de uma marca de leite. Para dar conta da escola, dos amigos, dos jogos eletrônicos, da família, precisava ter o relógio bem pertinho. Sem ele, sentia-se perdido, desordenado, fora de órbita. Sem relógio, o tempo o controlava. E ele... perdia o controle.