quinta-feira, 5 de maio de 2011

Alzheimer

Não me lembro muito qual o ano em que descobriu-se que meu padrinho tinha mal de Alzheimer. Ele era padre, professor de inglês e português e muito ativo na área da cultura aqui em Ouro Preto. Quando fez 80 anos, seus irmãos deram a ele uma viagem para Jerusalém, com passagem em vários países. Ele foi com a vovó, mais um irmão e uma cunhada. Voltou já bem estranho. Ninguém sabia, mas ele já tinha Alzheimer, e o processo ficou um pouco pior com a viagem. Pessoas com o mal não devem sair dos lugares de costume.

Também não me lembro quanto tempo durou a doença. Lembro que ele não soube que eu passei no vestibular pra jornalismo. Ou melhor, eu contei, mas ele não esboçou reação. Justo ele, que era meu maior incentivador. Não lembro de quantas vezes vim a Ouro Preto em finais de semana para ajudar vovó a cuidar dele.

Lembro mais de quando ele ficou bastante doente, porque o Alzheimer fez um pequeno estrago no seu aparelho respiratório. Fiquei bastante tempo com ele na Santa Casa de Ouro Preto e, depois, no Hospital Madre Teresa, em BH. Ia visitá-lo todos os dias, no quarto e na UTI. Foram quase dois meses de hospital e ele faleceu. Não sem antes sorrir pra mim e dizer "afilhada querida", que era como me chamava, ainda na UTI.

Padrinho só me deixou coisas boas. Uma biblioteca enorme, cartas lindas, cheias de carinho, fotos e muitas lembranças. Lembro dele quase sempre, mas quase nunca do perído do Alzheimer. Agora, é só o que me vem à memória. Outro irmão da vovó está com Alzheimer já há alguns anos. Neste momento, está na UTI em BH, também com o aparelho respiratório comprometido.

Curioso que dessa vez parece tão longe... Como a vovó não tem mais idade pra sofrer (como se houvesse idade para isso), não contamos a ela ainda. Pela nossa experiência anterior, o processo é longo e doloroso, e ela não precisa passar por isso. Como não contamos a ela, não conversamos sobre o assunto. A distância, por outro lado, não diminui a realidade da doença, a lembrança de como foi com Padrinho e o medo do que pode vir a acontecer com a vovó. Ela já passou da idade crítica de desenvolver Alzheimer, mas está numa fase de extrema fragilidade, em que tudo machuca, a pele, os ossos, os músculos estão finos e podem se quebrar.

Há um lado muito legal de ter a família toda idosa, que é poder conviver com toda a história e a sabedoria pregressas. Mas há esse outro lado: tomo mundo envelhecendo, demonstrando mais fragilidade. E, como dizia meu bisavô Camillo, só posso concluir que a velhico é, mesmo, muito triste.