terça-feira, 26 de abril de 2011

Não era um passo de dança

Fernando Sabino, no livro O Encontro Marcado, um dos meus favoritos, termina a primeira parte do texto assim:

"De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um novo caminho. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro".

Quando eu fiz dança moderna e teve a tradicional apresentação de final de ano, a professora insistia em dizer que se, por acaso, uma de nós caísse, era só dar um jeito de levantar e seguir em frente, como se nada tivesse acontecido. Como se fosse fácil você, aos dez anos, cair no palco em frente aos pais, mães e irmãos e mais a parentada que teve saco de ir lá ver aquela dança ridícula...

O fato é que, aos 92 anos, 9 meses e 23 dias, vovó caiu de novo. Mais uma queda que, infelizmente, não virou um passo de dança.

Aline me ligou dizendo que ela tinha caído. Foi quando saia para ir ao dentista. Ela desceu as escadas, de onde já tinha caído em 2007, e, ao se virar para ir em direção à porta, escorregou e caiu de cabeça no chão. Foi a Aline que a levantou e a sentou na escada. Vovó não queria que ela me ligasse. Queria levantar e ir ao dentista. Quando cheguei, ela estava doidinha, no corredor. Foi um custo convencê-la a não ir mais ao dentista. Passada essa fase, ela queria ficar em casa quieta. Leo e eu insistíamos pra ela ir ao hospital e ela não queria. Mas em certo momento, queixou de dor de cabeça. Ela também não queria que chamássemos o SAMU. Porque, da outra vez, saiu imobilizada na maca, procedimento padrão dos socorristas. Por fim, nos deixou levá-la à Santa Casa.

O médico olhou e disse que, aparentemente, estava tudo bem. Isso até o raio-x ficar pronto. O Dr. Marcos foi taxativo ao dizer que foi muita sorte ela não ter quebrado nada. Vovó costurou e fez crochê durante anos, encurvada, e isso afetou os discos que ficam entre as vértebras. Eles funcionam quase que como amortecedores. Como a vovó tem os discos bem desgastados, qualquer tranco mais forte com cabeça e pescoço podem levar a uma fratura, o que seria terrível na idade dela.

Foram três horas na Santa Casa. O pessoal de lá tem uma boa vontade incrível e todos foram muito atenciosos com a vovó. Pena que não dá pra elogiar a organização deles. O prontuário da vovó estava com a marcação amarela, de urgência, e havia mais três pessoas na área de urgência. Nenhuma delas tinha especificação de cores e todos os três foram atendidos antes da vovó. Imagine só, idosa, com a ficha marcando urgência, e nenhum atendente colocou ordem naquela fila e passou a vovó na frente. Graças a Deus, a urgência dela não era emergência, senão...

Enquanto estávamos esperando o raio-x, me bateu aquele desespero e as lágrimas brotaram. Saí de perto, pra ela não me ver chorando, e fui engolir as lágrimas pra voltar. Até agora, não consegui chorar de novo. Paralelamente, lembro do meu bisavô Camillo, que eu não conheci, mas que todo mundo cita: "a velhice é muito triste", dizia ele, sempre, mesmo tendo tido todo o carinho, apoio e a atenção dos filhos, netos e bisnetos. Ele teve 13 filhos, todos muito fiéis a ele. Vovó só teve dois filhos, minha mãe e o Paulo, e só quatro netos, meus irmãos e eu. A assistência é menor, aqui em OP só estamos eu e Paulo, e o Leo, que é conhecido na família como "o neto favorito da D. Zina".

São quase 93 anos. Mesmo estando firme, forte, lúcida, ela vai definhando. Desce a escada de casa rapidinho, mas demora uns dois minutos pra subir, quase arrancando o corrimão da parede. Caminha já com dificuldade, os passos bem lentos. Demora muito pra levantar do sofá, apoiando nos dois braços. Já tem um pouco de incontinência urinária e, à noite, precisa correr para o banheiro, fato que já levou a uma queda. Não tem mais saído de casa, só para ir à missa aos domingos, ir ao médico ou ao dentista. Essa última queda vai nos forçar a observar mais as saídas dela. E fechá-la em casa, para evitar novos tombos, vai restringir demais o seu mundo e abrir demais o campo para a depressão, que é inevitável nessa idade, ainda mais quanto todos os irmãos mais velhos já se foram e quando quase todas as amigas também não estão mais aqui.

Não sei quantos anos de vida mais ela tem. Só sei que, como dizia vô Camillo, vão ser cada vez mais tristes. Para ela, para mim e para todo mundo que está perto.

Deve ser duro demais se ver, aos poucos, diminuindo sua capacidade para fazer coisas básicas, como levantar da cama, caminhar, carregar uma sacola. Não poder mais cair, fazer carão, levantar e seguir a vida como se nada mais tivesse acontecido.